segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Virginia Tech – Uma análise sociológica-nerdica do porque tais massacres serem tão comuns nos EUA



Poucos eventos costumam despertar tanta atenção da mídia como os famosos “massacres” que ocorrem de tempos em tempos em escolas e universidades americanas. Destes, o mais gritante parece ser o ocorrido em Virginia Tech - devido ao numero de vitimas e também ao destaque que recebeu.
Mas porque esses massacres ocorrem? Porque são um fenômeno majoritariamente Americano? e Por que ainda é tão fácil se obter armas na terra do Tio Sam? São essas perguntas que tentaremos responder agora!


O American Way of Life

Podemos entender muito sobre a cultura de alguns paises apenas observando a maneira que seu próprio povo se retrata através das mídias. A cultura americana é uma das mais fáceis de se estudar nesse sentido; devido a grande profusão e destaque que seus produtos culturais alcançam. Desses aspectos culturais tipicamente americanos, um dos mais visíveis na mídia é a “cultura do loser”. Para quem não sabe o que é isso, vou dar uma resumida básica:

A ofensa mais grave que se pode fazer a um americano é chama-lo de "perdedor" (loser). Mas quem seria esse perdedor? Bem, geralmente o perdedor é “escolhido” desde os tempos do colégio, onde por não se enquadrar em algum padrão (geralmente popularidade e condição financeira), o “perdedor” sofre a opressão e colegas de classe e até mesmo de educadores (que fazem vista grossa ao fato). Exemplos de “perdedores”? Apesar de serem tantos os que poderiam ser listados aqui, creio que nenhum obra artística representou tão bem o “ciclo do perdedor” do que o relativamente recente desenho animado Danny Phantom. Para quem já assistiu o desenho é fácil perceber todo um núcleo de perdedores: Danny (o fracote de pais esquisitos), Tuker (o nerd) e Sam (a gothica). Esses “perdedores” por sua vez são vitimas constantes dos chamados “vencedores”: Os jogadores de “futebol americano” e as “patricinhas gostosonas”. É um ecossistema claramente dividido entre “incluídos” e “excluídos”, entre “populares” e “impopulares”, entre “vencedores” e “perdedores”. E esse é o resumo quase perfeito de um dos aspectos mais terríveis do american way of life.

Mas você deve estar se perguntando: de onde vem isso? Porque uma sociedade inteira se organiza dessa forma? Calma jovem Padawan... você logo saberá a resposta!! Mas para isso é preciso voltar no tempo... lá para o inicio da colonização americana...

A ética protestante e o espírito do Bullynismo

Era uma vez um cara chamado Weber, Max Weber... um dia, querendo sacanear o materialismo histórico de Marx, esse cara escreve um livro intitulado “a ética protestante e o espírito do capitalismo”. Nesse livro Weber analisa a influencia da ética protestante no desenvolvimento econômico superior dos paises formados em sua maioria por seguidores dessa religião. Mas o que teria a ver os “crentes” com o “capetalismo”? muita coisa!
A chave para entender essa relação é a teoria da “predestinação absoluta” de João Calvino (um dos principais nomes da “reforma protestante”). Se Lutero isentou a “burguesia” de ir para o inferno (colocando como item principal do bom cristão a fé - e não as obras), Calvino melhorou ainda mais o lado dos “prayboy”: associou prosperidade material com sinal divino!!
A teoria da predestinação absoluta é mais ou menos assim: você nasce e deus olha para a sua cara... já com essa olhadinha rápida (ele tem muita gente para olhar, então ao reclama não!!:-P), ele já determina se você vai para o céu ou para o inferno. Sim, você já nasceria “predestinado” a um dos dois lados... Mas como deus não é tão mal assim, ele não deixaria você “as cegas” sem saber se era um “escolhido” ou não... ele te mandaria uma pista... qual pista? Se você conseguisse obter êxito material (encher o rabo de bufunfa, grana, ca$$him...), desde que fosse por meio do trabalho (não vale roubar nem “pecar”), era um sinal de que deus escolheu você pra ficar do “ladinho” dele no céu...
Assim sendo, ao contrario do católico (para quem o lucro é algo ruim), o evangélico calvinista se esforça extremamente para ficar o mais rico possível (e assim ser visto como “escolhido” pelos seus vizinhos).

Como você já deve ter aprendido na aula de historia (se não aprendeu, preste mais atenção, porra!!), as pessoas que fundam os Estados Unidos são ingleses ultra-puritanos (e de origem calvinista) que partem em busca de criar um país próprio onde pudessem exercer todo o seu puritanismo exacerbado. Sim, as pessoas que fundam os E.U.A. são exatamente os crentes bitolados que eu descrevi acima :-P.
Essa é a chave para entender muitos aspectos característicos da cultura americana, desde o “self made man”, a ânsia por êxito econômico e - pasmem - a cultura do loser!!

Se você não fez ainda uma relação entre a ética protestante e a cultura do loser eu vou facilitar as coisas pra você... Imagine que você estuda em uma escola americana. Lá logo cedo se formam as panelinhas dos “vencedores”, e começam a se definir quem vão ser os sacos de pancadas deles – os “perdedores”. É possível argumentar que tal comportamento acontece em quase todas as sociedades (o que não deixa de ser verdade), mas você rapidamente percebera como ele é especialmente forte na sociedade norte-americana. Os “perdedores” de outros paises costumam se adaptar a outros meios sociais, nunca ficando necessariamente isolados. Os “perdedores” americanos não.
Exemplo? Vá para qualquer escola do Brasil. Lá você observará que existem conflitos constantes entre a “molecada”, mas dificilmente achará uma criança que pareça não se encaixar em “lugar nenhum”. As brincadeiras de mal gosto existem, mas raramente estas são dirigidas no estilo “todos contra um” (o aluno “oprimido” geralmente tem outros grupos onde ele se encaixa, e interage com outros colegas); outras vezes, você notará que existe amizade entre agressor e agredido, e que muitas vezes o papel se inverte (?).
Agora voltando ao exemplo americano... nos EUA não existe nada disso!! Quando é excluído do meio social, o “perdedor” é excluído de maneira quase absoluta! Os “vencedores” dificilmente lhes dirigem a palavra (a não ser por motivos de escárnio), seus outros colegas se omitem de tentar interagir com eles (evitando tambem serem vitimas de tais agressões) e até mesmo professores aderem a esse tipo de comportamento. A marca do loser americano é a completa solidão...

Aprofundando as evidencias

Para compreender melhor o fato, vamos nos aprofundar a relação entre a cultura do loser e as características comuns a maioria desses massacres. Uma pergunta que fica na cabeça é porque esses massacres costumam envolver tanta gente que aparentemente “nada tinha a ver com o rolo”. O fato é, como eu disse acima, que o loser geralmente é excluído de todo o meio social, e logo, todos passam a ser seus “inimigos”. Não significa necessariamente que todos os que são vitimas desse massacre eram praticantes de agressões, mas é certo que a imensa maioria se omitia de posicionar-se contra (e isso também tem um peso enorme).
Agora é preciso entender o porque dessa omissão e conivência ser tão comum por lá. O primeiro fator se refere obviamente a “ética protestante” onipresente no comportamento dos americanos (mesmo entre os que são ateus ou seguem outra religião). Outro se refere ao fato de que é muito difícil se opor a hábitos previamente estabelecidos. É apenas questão de se imaginar a coisa toda como um “ciclo”. A maioria das pessoas se omitem não por concordarem com tais praticas, mas por medo de também serem vitimas das mesmas. Ao mesmo tempo, se tornar um “agressor” (ou fazer parte do seu grupo de amigos) é um caminho extremamente rápido para ser visto como um “vencedor”. Assim sendo, como o fato de você não rir da piada idiota que um desses valentões fez com um “perdedor” provavelmente o colocará na lista de futuros “perdedores” a serem zoados, você obviamente irá “entrar na onda” e achar aquilo totalmente “normal e bonito”! Também devemos levar em conta que o ser humano é um animal com extrema necessidade de “integração”, por vezes praticando as coisas mais imbecis ou hediondas para poder se enquadrar em algum meio.
O fato é que a grande maioria dos 33 baleados pelo atirador de Virginia Tech eram tão vitimas quanto ele...

Por que o acesso as armas é tão fácil nos Estados Unidos?

Outro ponto que chama atenção quando esses eventos ocorrem é a facilidade com o qual se obtém armas de fogo nos Estados Unidos. A raiz de tal fato também se encontra numa mistura de história e contexto político-social...
Voltando as aulas de história, vocês devem saber que os Americanos realizaram uma guerra contra a Inglaterra para conquistar sua independência. Nesse período, uma das influencias mais fortes das lideranças envolvidas era os assim chamados “Iluministas”. Destes, é especialmente forte a “presença” de Locke (não, não é o do Lost :P) na elaboração da constituição americana.
Para quem não sabe, o direito ao porte de armas é garantido na própria constituição desse país!! Por que isso? Creio que também tenha muito a ver com Locke...
Locke era um jus naturalista (defendia direitos naturais, que já nasciam com as pessoas); para ele, esses direitos seriam simultaneamente a vida, a liberdade e a propriedade privada. Sendo assim, o Estado existiria com a finalidade única de garantir e suprir esses direitos... mas e se o Estado não o fizesse? Ou se o Estado fosse agressor?

Segundo Locke, quando o executivo ou o legislativo violam a lei estabelecida e atentam contra a propriedade, o governo deixa de cumprir o fim a que fora destinado, tornando-se ilegal e degenerando em tirania (o exercício do poder para além do direito, visando o interesse próprio e não o bem público ou comum);
A violação deliberada e sistemática da propriedade (vida, liberdade e bens) e o uso contínuo da força sem amparo legal colocam o governo em estado de guerra contra a sociedade e os governantes em rebelião contra os governados, conferindo ao povo o legítimo direito de resistência à opressão e à tirania.

(Clique aqui para a fonte - é um ótimo resumo)

Siiiimmmmmm.... isso mesmo que você leu: se o estado deixa de cumprir o que lhe foi incumbido, o cidadão (ou cidadãos) tem o direito ou de derrubar esse governo - ou de garantir eles próprios esses direitos. É o famoso “direito de resistência” Lockeano!!
Tal premissa - aliada ao fato de que os americanos tiveram que conquistar sua liberdade política à força - explica porque é tão caro aos americanos o direito de se conseguir um trabuco tão facilmente (mesmo que isso implique em algumas crianças e jovens mortos com certa frequencia...).

A culpa é do filme??

Sempre que tais eventos acontecem sempre pinta entre as especulações uma possível “má influencia da mídia” (o mais engraçado é que a própria TV que costuma ser uma das maiores propagandistas dessas versões :P). Nesse caso não foi diferente.
Uma das fotos enviadas pelo atirador Cho Seung-hui o mostrava portando um martelo em pose que fazia possível alusão ao filme “OldBoy”. Obviamente tal foto deu origem a muito “bafafá” sobre os possíveis efeitos negativos que filmes e games podem fazer com as pessoas (fundamentalistas evangélicos especularam até possível intervenção do tinhoso). O assunto mídia ainda será tratado inúmera vezes nesse blog, de maneira mais profunda e contundente, então, vou apenas apontar algumas peças chaves do porquê tal premissa é equivocada: 1- como os outros milhões que assistiram o filme não mataram ninguém?; 2 – A sociedade adora apontar esse tipo de “desculpa” sobre a influencia da mídia, pois geralmente isso a poupa de tentar enxergar o próprio umbigo (e de tomar qualquer providencia concreta).

Conclusão

Para mim a relação entre os massacres constantes ocorridos em ambientes de ensino (e a cultura do loser) está tão correlacionada a “ética protestante” que fico até surpreso que nenhum outro sociólogo antes de mim se deu ao trabalho de relacionar ambos (ou eu pesquisei pouco e banquei o idiota digitando 4 paginas sobre o assunto O_o).
O fato é que sempre que tais eventos ocorrem, raras vezes ouço falar que os atiradores que praticam tal barbárie eram vitimas de outros colegas (geralmente a mídia se apressa a taxa-los como psicopatas). Não estou aqui defendendo a postura tomada por tais jovens, e nem afirmando que os mesmos não sofriam de possíveis distúrbios mentais. Mas transforma-los em simples “vilões de desenho animado” (cuja maldade geralmente é inata, e não existe nada que a justifique) é de uma grosseria intelectual absurda.
O material entregue pelo protagonista do ataque a uma rede de televisão americana denuncia muito mais do que um jovem perturbado: denuncia desejo de vingança (não contra indivíduos, mas contra uma sociedade) e denuncia também uma espécie de “discurso messiânico” (onde o mesmo se torna um “mártir” da causa dos losers).
Tais massacres deveriam servir de alerta para uma mudança gradual e efetiva no bullying rotineiro praticado em escolas, e também numa regulamentação mais restritiva à venda e posse de armas. Encerrar o assunto com “Virginia Tech tinha comportamento violento e era solitário” é empurrar a sujeira da sociedade para debaixo do tapete – e se esquecer que, cedo ou tarde, a sujeira pode voltar a sujar a sala...



PS1: A homenagem as vitimas do massacre de Virginia Tech foi feita em um estádio de futebol americano. No final eles cantaram o "grito de guerra" da Universidade (e do time de Futebol) num gesto de “união”. Acho que esses massagres não acabarão tão cedo...

PS2: seis meses depois do massacre de Virginia, novo massacre aconteceu em escola americana...

PS3: dentre as inúmeras soluções discutidas para evitar novas incidências de massacres similares, nenhuma inclui uma fiscalização mais rígida do comportamento dos alunos visando diminuir a incidência de Bullying no ambiente escolar (será que as pessoas são mesma assim tão burras??)

PS4: Aos colegas mais versados em Webber ou Locke, desculpem algum eventual erro. Aceito sujestões para aprimorar o artigo.

PS5: outro pequeno artigo interessante (clique aqui).

PS6: esse post só está 7 meses atrasado :P

9 comentários:

Alvaro Trigo fernandes. disse...

Não esperem novas postagens tão cedo...
:P

César disse...

E ai Alvaro, tudo bom.
Li seu texto, gostei dele. A leitura de Weber e Locke estão coerentes.
Agora só nao sei se dá para afirmar com tanta certeza que nunca houve na história desse país (ops...) que nunca houve trabalho sociológico que associa-se a ética protestante a formação da sociedade norte-americana. Se procurar nos bancos de dado das universidades americanas vc deve achar quilos de teses sobre isso. OUtra dica é fazer uma consulta na maior biblioteca do mundo, a do Congresso Norte-Americano (http://www.loc.gov/index.html).
Tem um livro be interessante sobre o desenvolvimento da sociologia norte-americana e a questão da coreção social, talvez vc já conheça, ele está mais para um manual e é um pouco antigo, mas gosto muito do texto.
BERGER, Peter. Perspectivas sociológicas. 2.ed. São Paulo; Circulo do Livro, 1976.
Você deve conhecer mais bibliografia na área de sociologia do que eu.
Um outro elogio que faço é a questão da linguagem que você usa, ela é muito acessivel e com isso consegue passar conceitos de maneira que leigos entendam.
Parabéns.

Alvaro Trigo fernandes. disse...

Valeu pelos elogios cesar.

pra falar a verdade, não conheço tanto sociologia como talvez aparente. acho quemeu verdadeiro talento é conseguir lembrar (muito bem) as aulas de meus professores e uma certa facilidade para estabelecer conexões.
meus conehcimentos em si são limitados.

voce tamebem parece entender bastante do assunto. qual a sua formação?

abraços!

César disse...

Sou formado em História e atualmente faço doutorado na mesma área. Já dei aulas de sociologia e antropologia no Ensino Superior e de história num curso de Ciências Sociais, por isso dou meus pitacos por aqui... rsrsrs Mas isso não quer dizer que eu seja um grd especialista em ciências sociais.

Gosto do que e como você escreve.

Quando criei meu blog foi para exercitar a escrita mais objetiva e clara, para tentar atingir um grd público e me livrar dos vícios da academia. Você já consegue fazer isso.

Como você sou um nerd de carteirinha, cresci lendo essa linha da cultura pop (HQs, Carl Sagan, Arthur C. Clark, Stephen King, etc.) e jogando RPG. Durante a faculdade jogava toda semana. Mas não ache que sou um vovô, tenho um quarto de século ;-)

Continue assim que esse é o caminho.

Passe no fronteiras e deixe comentários, não tenho grds textos de análise lá, mas tem um que gostaria que lesse e assistisse o vídeo:

http://fronteirasnotempo.blogspot.com/2007/04/eu-sou-apenas-um-homem-normal.html

Espero você por lá

Abração

César disse...

O Link tava errado...
http://fronteirasnotempo.blogspot.com/2007/04/eu-sou-apenas-um-homem-normal.html

agora esse está certo

César disse...

Não está dando certo...
O título do post é esse: EU SOU APENAS UM HOMEM... NORMAL(?)
ele foi publicado dia 3 de abril de 2007, de uma fuçada no arquivo do blog...

rodrigo_galhano disse...

Estaria eu exagerando em dizer que seu texto foi brilhante? Depois dessa leitura não teve como não adicioná-lo no meu favoritos.

Net disse...

Oi, Alvaro!

Brilhante o seu texto! Sabe, eu sempre me perguntei por que há tantos tiroteios em escolas dos EUA... seu texto esclareceu-me. Muito grato.

Anônimo disse...

ñ ficare surpreso se algum dia esse povo se tornar mortal para a raça humana