segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Psicopata Americano – Uma análise da personalidade de Batman


Quem tu chamou de Psicopata?!!heim?!!

Observação: O texto a seguir se baseia em observações e opiniões minhas, e pode causar polemica entre alguns fãs (xiitas) do Homem-Morcego. Apenas como atenuante, gostaria de lembrar que ele é um dos meus personagens favoritos (juntamente com Demolidor e Kenshin Himura), a ponto de eu ter feito minha monografia de Ciências Sociais sobre a mini-série “O cavaleiro das Trevas” (em breve disponível no Blog).
Basicamente, o que fiz foi colocar “o morcego no divã”. Apesar de não ser formado em psicologia, acredito conhecer o suficiente sobre a alma humana (e sobre o personagem) para palpitar a respeito...
Na vida real, é extremamente difícil definir alguém. As pessoas são bastante complexas e geralmente dispomos de poucas informações sobre elas. No caso de Batman, temos uma vantagem: como é um personagem, temos bastante informação acerca de sua vida. Mas apesar do extenso material disponível sobre o personagem, me baseei principalmente nos “quatro evangelhos canônicos” do Morcego (“O Cavaleiro das Trevas”, “Batman – ano um”, “A piada mortal”, “Asilo Arkham”) e em um apócrifo (“O longo dia das Bruxas”).
Resolvi separar os tópicos pelo método “perguntas e respostas”, pois creio que fica mais fácil o entendimento assim. Boa leitura!!

Qual é a natureza da personalidade de Bruce?

Primeiro fato a se constatar: Bruce tinha uma natureza agressiva antes mesmo de seus pais serem mortos. Na cena em que persegue o coelho antes de cair na caverna isto é evidente (DK1). Ele possui um temperamento e uma sede de vencer característicos de "agressividade". Quando digo isso não quero dizer que ele era uma pessoa propensa a “sair dando porrada” nas pessoas, que era um “projeto de Brucutu”. A agressividade a que me refiro não é necessariamente física, e não necessariamente ruim. “Agressividade” no contexto que proponho é mais como um “impulso” para a vitória (custe o que custar), obstinação, implacabilidade - Aos iniciados em política ou direito, bastante similar ao conceito maquiavélico de virtú.
Se seus pais não houvessem sido mortos e Bruce tivesse tido uma vida normal, é bem provável que ele acabasse como um desses executivos obstinados, como um negociador da bolsa de valores, ou em cargos de gerencia, onde costumeiramente os talentos intelectuais de bruce – juntamente com sua “agressividade”- o tornariam muito apto a exercer este papel com brilhantismo. Ou pode ser - na pior das hipóteses - que ele tivesse se tornado o que é costumeiramente chamado de “psicopata Corporativo”, alguém que se empenhasse em sempre ser o melhor e em conseguir o que quer – não importa quem ou o que atravessasse seu caminho.
Quando seus pais foram mortos diante de seus olhos, a agressividade de Bruce tomou outros rumos, mais sombrios. O menino Bruce se tornou o "homem" Bruce de maneira repentina, sem a devida preparação... ele se ergueu da calçada transformado em outra pessoa, uma pessoa em que essa agressividade estivesse mais aflorada - pois ela seria necessária para lidar com a nova situação, para mantê-lo em pé...
Da mesma forma que uma vida normal poderia se encarregar de amenizar este traço de personalidade, o trauma a ampliou-a significantemente, acrescendo doses de raiva e medo.
Também convém citar os quadrinhos iniciais de “O Cavaleiro das Trevas”, onde Bruce participa de uma corrida de carros. Como Batman havia deixado de “existir”, seu alter ego precisava desviar sua agressividade pra outras atividades, como a citada corrida (que ele transforma numa questão de vida ou morte).

Quem é Bruce Wayne?

Bem, vamos começar de maneira simples, para depois aprofundar: o que define, basicamente, Bruce Wayne, são 3 pontos: 1 - sua personalidade natural (agressiva, citada acima), 2 - o convívio com seus pais, 3 - a morte dos mesmos.
Muito bem. Depois que seus pais morreram, Bruce, profundamente abalado foi até o tumulo deles e jurou “livrar esta cidade do mal que ceifou suas vidas”. Pode parecer que não, mas esse é o ponto crucial das atitudes do Batman... Mas estou adiantado demais! precisamos voltar um pouco mais atrás, nas personalidades de Thomas e Martha Wayne...
Thomas é um medico, e para ele nada é mais sagrado que a vida. Por isso ele escolheu como oficio uma profissão que vise salvar pessoas. Você pode pensar “mas é pelo dinheiro!”, mas na minissérie “o longo dia das bruxas” o chefe da família Falcone leva seu filho baleado para Thomas, que não o deixa morrer (como muitos deixariam, já que o sujeito “não presta”), mas o salva - sem receber pagamento (de qualquer tipo). Esta cena define bem o pai de Bruce: alguém que defende o american way básico, os ideais de justiça, honestidade e liberdade, mas que considera que uma vida - qualquer uma - esta acima disto. Outro ponto a se notar é a maneira com que interage com Bruce: ele é um pai austero, mas carinhoso.
Martha é o exemplo de mãe perfeita. Atenciosa e carinhosa, ela faz o perfeito contraponto a figura um pouco mais sisuda de Thomas. Sua família é seu bem mais precioso, e ela compartilha do mesmo amor a vida que seu esposo.
As coisas mais importantes para Bruce são as pessoas descritas acima. Elas são o seu alicerce, e tudo o que ele é se deve a elas. Quando estas pessoas morrem o mundo de Bruce desmorona. É ai que voltamos a cena do juramento...
O que bruce faz lá não é uma promessinha a toa, como a maioria das pessoas estão acostumadas. Seus pais são o que lhe é mais sagrado, e estes lhe ensinaram que promessas são importantes. E Bruce dedicara cada fibra de seu ser - e pagará qualquer preço - para honrar sua palavra.

O que leva um milionário a se vestir de morcego?

Pense bem: Bruce realmente precisaria sair a campo pra cumprir seu juramento? Claro que não!! Ele é rico, ele poderia fazer isso de “trocentas” maneiras, sem precisar tirar o traseiro de seu sofá do séc XVIII.
Nas historias vemos ele usando alguns desses métodos alternativos. O principal envolve a doação de dinheiro a instituições de caridade (que diminuem problemas sociais, e por conseqüência o crime) e penais (que coíbem novos crimes). Ele poderia ir ainda mais longe e financiar uma milícia particular pra combater o crime (de certa forma, ele faz isso também...). Então por que raios ele arrisca o próprio couro toda santa noite? Resposta: porque ele quer!
Ao combater o crime como Batman, Bruce não esta apenas cumprindo o seu juramento, ele também esta descontando sua raiva.
Basicamente ele sai, todas as noites, pra castigar pessoalmente os criminosos. Mais do que isso, creio que ele também faz isso pra se castigar. Sei que isso vai fazer muito fã querer minha pele, mas acredito que o que Bruce faz todas as noites também seja claramente um “ritual de auto-flagelação”. Calma que isso vai ser melhor explicado depois...

Por que escolher um morcego como símbolo?

Quando pensava em uma maneira de intimidar criminosos, um morcego atravessou a janela do lugar onde Bruce estava. Ele se lembrou de que quando era um garoto ele caiu na caverna abaixo da casa e ficou aterrorizado com os morcegos que voavam em sua direção. Ele decidiu se tornar parecido com aquilo que o aterrorizou quando criança, para causar terror enquanto adulto (naqueles que merecessem, claro).
Essa resposta parece obvia, mas significa bem mais do que aparenta. Vamos ir a fundo nas questões que ela implica...
Vamos emendar outra pergunta: O que mais aterrorizou o pequeno Bruce Wayne? Resposta: não, não foi um morcego! foi um criminoso, aquele que matou seus pais diante dos seus olhos!!
O fato é que, pra combater o crime, bruce precisou se tornar alguém quase tão ruim quanto aqueles que combate. Ele essencialmente é um criminoso também: age a margem da lei, tortura, usa armas ilegais, abusa de violência física e psicológica pra conseguir seus objetivos. Ao escolher o morcego como símbolo ele não estava apenas achando um meio de “intimidar criminosos”, ele estava se tornando aquilo que temia!!
Ele escolheu a aparência de um monstro, mas não o é. Ele também usa métodos que o aproximam de um criminoso, mas luta pela justiça. Para enfrentar seus medos, Bruce se apoderou de parte do que eles significavam.

Por que ele não mata?

Esta é provavelmente a seção mais ampla de todas as respostas. E, creio também, a mais complexa. Sabemos que - para poder cumprir seu juramento - ele teve que se aprimorar, evoluir... Enquanto permaneceu sob a tutela de Alfred ele aprendeu o que foi possível sobre o crime e maneiras de combatê-lo, mas nada excepcional. Ele precisava de autonomia para se aprimorar, e obteve independência. Com isso ele poderia rodar o mundo em busca de conhecimento, e obter contato real do perigo. Aqui chegamos ao ponto que interessa. Bruce aprendeu tudo o que podia sobre ser um guerreiro, inclusive técnicas que matam oponentes. Ele se tornou um “assassino potencial” (talvez o mais hábil deles).
A natureza agressiva, e o trauma da morte dos pais geram um imenso impulso assassino. É o desejo de aplicar a punição suprema, de livrar definitivamente a sociedade de quem não é digno de permanecer nela, de ser “carrasco”. Vendo todos esses aspectos a respeito de Bruce, parece até absurdo que ele não tenha executado um criminoso ainda (principalmente psicopatas do quilate do Coringa).
O fato é que algumas vezes ele quase perdeu o controle, mas algo mais forte o segura: o exemplo de seus pais e seu juramento. Se ele matar um criminoso, por pior que este seja, ele estará se tornando também um assassino - isto é parte do mal que jurou combater. Estará traindo a si próprio, e manchando a memória de seus pais.
Também sobre isso, é bacana como os sentimentos de Bruce andam em “círculos”: a perda dos pais o faz ter ódio de criminosos a ponto de querer mata-los; mas seus pais não aprovariam essa atitude, que força-o a frear esse impulso; ele se lembra que pessoas tão nobres foram tiradas dele, e isso lhe causa ódio... assim sucessivamente, como uma bomba prestes a explodir que sempre é “desligada” no final, mas recomeça imediatamente sua “contagem”.

Alem disso, há algo mais que freia seu impulso assassino. De fato, o que mais aterrorizou Bruce em sua infância não foram morcegos e criminosos, mas a própria morte em si. A morte é o que mais assusta Bruce, o que ele mais teme. Por mais que ele odeie criminosos, ele odeia acima de tudo a morte.
Esse é o aspecto que acho mais bacana no personagem: seus sentimentos conflitantes sobre “matar ou não matar”. São sentimentos complexos, que envolvem diversos fatores emocionais e racionais. E isso é uma das coisas que tornam o personagem tão rico!!

Por que existem os robins?

Os Robins sempre foram um fator polemico nas historias do Batman. algumas pessoas gostam, pois é parte da mitologia do homem-morcego; outras pessoas detestam, pois acham que ameniza o tom sombrio que as historias (e o personagem) deviam ter. Eu, particularmente, acho que o “Robin”(qualquer um dos), quando aproveitado de maneira correta, é um ótimo personagem, e como vocês verão abaixo, pode até acentuar o tom sombrio do Batman...
Ao contrario do que as más línguas falam, não existe nada de “michaelJacksonzismo” nos motivos que levam Batman a adotar crianças em sua guerra ao crime. O motivo real é mais complicado de explicar, mas vamos lá: Quando seus pais morreram, o que Bruce queria fazer imediatamente é caçar o criminoso, mas é claro que isso não era possível, pois não tinha habilidades necessárias para faze-lo. Ele teve que esperar muitos anos, que foram necessários para que estivesse apto a exercer a atividade de “justiceiro”. Ao convocar crianças como aliados, crianças estas que já presenciaram tragédia similar a sua, ele espelha nelas os seus desejos de jovem - que era “imediatamente” reagir perante a morte de seus pais. Ele realiza seu sonho de infância nestes garotos, dando a eles a oportunidade que ele próprio queria ter tido.
Existem outros pormenores nessa questão, que ficarão mais evidentes nos tópicos sobre os Robins...

Por que houve desentendimentos entre Batman e Dick Grayson (o 1º Robin)?

Se você leu a resposta da pergunta acima, saiba que ela é um dos maiores motivos. Em suma: Dick queria um pai, Bruce queria um soldado (porque você acha, que em meio a tantos órfãos no mundo, Bruce adotou um moleque com habilidades acrobáticas e uma tragédia envolvendo o crime? :P).
Dick é uma pessoa que também ansiava por justiça, mas não em tons tão negros quanto os de Batman. Sua personalidade não é agressiva como a de seu tutor (pessoalmente, acho que ela se parece mais com a de Clark Kent). É ai que começam os desentendimentos: Dick discorda dos métodos excessivamente violentos que Batman emprega em sua “guerra”, Bruce se decepciona com a falta de “vigor” com que seu pupilo encara a sua atividade noturna. A verdade é que Dick se parece mais com uma pessoa comum, ele lamenta a morte dos pais, mas o sentimento que brota disso é compaixão (e não raiva, como no caso de Bruce). Ele não é “Robin” para castigar o mundo, e sim para evitar que outras pessoas sofram. Ele não tinha o desejo de ficar remoendo o passado, e viver num eterno luto como bruce: ele só queria seguir com sua vida (o que restou dela), achar um novo lar, ter um novo pai, ser apenas um moleque comum. O problema é que um pai comum era tudo que Bruce não era, e com o tempo as diferenças entre ambos ficaram mais evidentes, provocando uma ruptura da parceria - e uma relação tempestuosa que volta e meia explode em agressões mutuas.

O que levou Batman a recrutar o 2º Robin, Jason Todd?

Apesar do evidente despreparo para assumir a função, Bruce aceitou Jason como parceiro e aprendiz. Ele fez isso por alto grau de identificação: é provável que se não fosse rico bruce se parecesse muito com o moleque que teve a audácia de tentar roubar as rodas do batmovel. Imaginar isso não é difícil, é só atentar para os traços de personalidade dos dois. Só para lembrar, o que define batman, em suma, são três pontos: sua personalidade, seus pais, e a morte de seus pais. O primeiro diz respeito a maneira como ele reage as coisas. O segundo são seus exemplos de conduta, que direciona a maneira como ele reage. O ultimo define um propósito de vida, decorrido de um trauma. Tood tem em comum o 1º e o 3º ponto.
O que mantém Batman na linha, que faz com que ele não sucumba a seus instintos agressivos (principalmente ao seu desejo de ser carrasco), é o segundo ponto.
Jason não teve esse exemplo, sua família era desestruturada, e ele não teve contato com os princípios que ajudaram a moldar bruce. E em parte é devido a sua condição social. Tood é claramente a versão “pobre” de um Bruce adolescente.
Mais do que adquirir um novo parceiro, Batman queria dar uma chance de redenção àquele garoto. De certa forma, foi a vez em que batman mais cedeu em seu caráter “punitivo”: Ele estava oferecendo reabilitação ao invés de retaliação.
Mas as coisas não são tão simples assim. A personalidade de Jason já estava estragada demais, e não havia muito o que fazer. Conforme progredia sob a manta de Robin, Jason ficava cada vez mais prepotente e agressivo. Ao contrario de Bruce, que em seu processo de aperfeiçoamento aprendeu a conter seus instintos, Jason os aflorava cada vez mais, caminhando para a autodestruição.
É claro que o novo Robin era uma fraqueza evidente para o Batman, e o Coringa não deixou de perceber. Ele se aproveitou das falhas na personalidade de Jason pra atraí-lo a uma armadilha, onde o 2º robin encontrou sua morte.
Depois da morte de seus pais, este foi o evento mais traumático com que bruce já lidou. E de longe, a maior derrota de Batman. Não foi a penas o jovem Jason Tood que morreu, mas um grande pedaço do lado “esperançoso” de Bruce...


Bruce carrega algum sentimento de culpa ou medo?

No recente Batman Begins, talvez para criar uma certa simpatia com o personagem central (ao estilo marvel), Bruce possui um sentimento de culpa em relação a morte dos pais. Quem já leu os quadrinhos sabe que isso é puro “hollywoodnismo”.
Mas não é necessariamente falso o conceito de culpa e medo em Bruce. Lembram do “Cavaleiro das Trevas”? quais eram os únicos momentos em que Batman não estava confiante, inflexível e prepotente? Resposta: quando ele estava “perdendo” uma luta.
Nota-se no personagem um receio absurdo de parecer ou ser fraco. E eu livremente associo isso a um sentimento de culpa (intricado de maneira mais inconsciente no personagem). O que da maior prazer ao Batman é ser forte e ameaçador – e principalmente poder exercer essa força e ameaça.
Numa interpretação livre, especulo que o personagem carrega um sentimento de culpa por ter sido fraco quando seus pais morreram. É claro que isso não possui nenhum aspecto lógico (um garoto não poderia nunca impedir o assassinato dos pais por um bandido armado), mas traumas não precisam de lógica para existirem.
O medo de Bruce é justamente parecer ou ser fraco. Na noite em que seus pais morreram, Bruce se sentiu extremamente fraco, impotente , vulnerável... e provavelmente jurou a si mesmo nunca estar novamente em posição similar. Sendo assim, Bruce é obcecado pela sua própria força e potencial, dedicando-se a atingir todos os limites possíveis a um ser humano (intelectuais e físicos).
Não é apenas isso. Se lembram que comentei acima que Bruce provavelmente sai pra se castigar enquanto castiga criminosos? Isso esta intrinsecamente ligado ao sentimento de culpa por “ter sido fraco”. Batman gosta de espancar, torturar, aterrorizar... e ele também adora enfrentar um oponente perigoso e mostrar pra ele que ele agüenta todo tipo de “porrada”. Ele adora levar um soco bem dado e saber que pode resistir a isso!! Ele adora ser torturado e saber que isso é pífio para ele!! Ele possui uma relação dúbia com a dor, onde sentir (e vencer) a mesma acaba resultando em “prazer”, o prazer de ser "forte"...
Nota: se você é um nerd bravinho que não gostou de ler sobre isso, recomendo reler todo o “Cavaleiro das Trevas”...

Porque seus relacionamentos são tão instáveis?

Quem conhece o personagem deve notar que seus relacionamentos (de qualquer espécie) geralmente acabam mal, e que Batman muitas vezes é ríspido até mesmo com pessoas que ele ama muito (como o Mordomo Alfred, praticamente seu pai adotivo). Apenas sua personalidade naturalmente “agressiva” não é suficiente para explicar isso...
O fato é que tal atitude é extremamente defensiva. Não é que ele não se importe com as pessoas, mas ele evita se importar (ou demonstrar que se importa). Sua intenção é evitar aproximações. Ele faz isso basicamente por três motivos: 1- ele quer evitar sentir novamente a dor de perder alguém que ama (não se esqueçam que o evento mais importante e traumático de sua vida foi a morte dos pais); 2 – ele quer evitar provocar a mesma dor de perda em terceiros se algo acontecer com ele (por isso ele faz questão de ser “chato”, causando natural antipatia nas pessoas - evitando assim que estas se importem com ele); 3 – Sua obsessão com o combate ao crime exige constante distanciamento emocional. É natural que ele “atropele” suas relações pessoais para dar vazão a sua “mania” de combater o crime.
Quanto ao terceiro ponto, não consigo deixar de estabelecer uma relação com outro famoso detetive: Sherlock Holmes. Para quem já leu as aventuras do detetive mais fodão do séc.XIX, deve lembrar que ele evitava qualquer tipo de relacionamento por acreditar que eles seriam um obstáculo a sua impressionante frieza e dedução lógica (essenciais para um bom detetive). Não quer dizer que ele fosse “gay”, mas sim que ele se absteve de uma vida pessoal para dar vazão a sua obsessão. Também vale lembrar os clássicos detetives da literatura e cinema noir (como os personagens de Dashiell Hammett e Raymond Chandler), que mantinham uma vida pessoal instável em nome do combate ao crime.
Pessoalmente, considero o Batman ideal justamente essa figura sisuda e "assexuada" citada acima. Detesto roteiros (e principalmente os filmes) onde “empurram” o Morcego para algum rabo de saia “amor de infância” ou coisa do tipo. Esse perfil raramente combina com o “Batman ideal”, e considero tais histórias um desrespeito tremendo com a essência do personagem. O problema é que a malfadada fama de “gay” atribuída ao Batman geralmente força os roteiristas a seguirem tal caminho. Também não estou dizendo que o personagem não deveria se envolver com mulheres: acho apenas que isso deveria ocorrer com menos freqüência e passando longe do padrão “morcego apaixonado”. Detetive noir bom mesmo é aquele que até transa (ou usa) as mulheres, mas passa longe de se apaixonar com elas...



Bem galera, era basicamente isso. Alguns outros pontos e raciocínios meus a respeito do morcego estou guardando para a futura postagem do resumo da minha monografia, bem como outros artigos sobre o Morcego que breve aparecerão aqui. Abraços!!

PS: O desenho que ilustra a matéria é meu. resolvi usá-lo para vocês não pensarem que a única coisa que sei desenhar são minhas charges mal-rabiscadas :P

15 comentários:

Ice disse...

Discordo da parte em que o Bruce tenha se sentido fraco ao ser incapaz de impedir o assassinato de seus pais...

Isso é sentimental demais pro Morcegão, mas no resto curti bastante o texto, só faltou algum coment´pario sobre o Tim...

Junior disse...

muito bacana!

Alvaro Trigo fernandes. disse...

Ice,

já esperava que não fosse unanimidade mesmo. Algumas teses minhas são mais "fortes", outras são mais "fracas". realmente, a "culpa" de bruce é uma das mais "fracas", dependendo muito do ponto de vista de quem le. Quanto ao Tim, realmente faltou algo dele... mas é porque eu não tinha nada relevante sobre ele pra falar (e ele tambem não aparece nos "canonicos" :P).

Junior,

brigado. volte sempre!!

Ice disse...

Tem razão, nem tinha me dado conta que ele não aparecia nas histórias que você escolheu...

Mas ainda assim acho que seria um personagem interessante, o único com a inteligência igual (ou maior) a do Bruce, com família (pelo menos no início) e tudo mais...

John Artmann Jr disse...

Show de bola.
Análise fantástica!
Parabéns.

César A. disse...

Gostei bastante do seu texto, bem articulado e coeso. Faltou apenas datar um pouco melhor sua análise. Como assim? Explico. A personalidade do Batman que descreveu com maestria ganhou essas feições a partir dos anos 80 e se configurou como tal por meio dos quatro trabalhos que citou.
Digo isso para não parecer que sempre o personagem foi sombrio, vingativo e via a morte dos pais da mesma maneira nas histórias que vários roteiristas escreveram para ele.
Podemos dizer que Frank Miller e Alan Moore foram os responsáveis por essa construção do Batman atual.
Entendo seu texto e essa “limitação” pela sua formação, pois os sociólogos geralmente realizam cortes sincrônicos em suas análises e a construção de conceitos, tão caro as Ciências Sociais, em muitas vezes acabam generalizando e ignorando a ação do tempo.
Mas, novamente te dou os parabéns por ter escrito uma das análises do morcegão mais bem estruturadas que já li.
Abração

Alvaro Trigo fernandes. disse...

Valeu pelos elogios Cesar.

Não datei o texto porque usei os "canonicos", que já o datavam implicitamente.

Essa caracteristica "mutante" do batman foi abordada na minha mono, que em breve estara postada aqui.

falow!!

Ana Paula disse...

Olá! Pois é, como pôde notar, eu desisti de ser intelectual virtual e resolvi ser mulherzinha virtual! Que bom que gostou do blog! Volte mais!

Venho te visitar mais vezes também!

Bjs

Algures disse...

Olha só, achei muito bem escrto e pesquisado sei texto e tal, mas sinceramente, assim é como eu vejo o batman desde que eu era menino, pra mim não há muita novidade ali, com apenas três ressalvas:

1 - Sobre a questão da "Agressividade latente" de Bruce ainda quando criança, acho que isso é inaplicável. O ser humano é um animal inteligente, mas ainda éum animal. Agressividade faz parte da natureza de qualquer ser humano, colocá-lo "para fora" só depende de como o meio o força a tal.

2 - Sobre os aliados do Batman, sempre vi como uma forma de fazer algo que, devido à sua obscessão pela sua missão, ele nunca teria, ou seja, uma família. Apesar de declarar preferir trabalhar sozinho, inconscientemente ele está fazendo o possível para constutuir uma família, do único jeito que aprendeu.

3 - Você não falou sobre os outros aliados do Batman, como o commissário Gordon (que tem a mesma idade que seu pai teria, então a relação deles é quase entre pai e um filho rebelde), Batgirl (essa sim, na minha opinião Batman usou como "Bucha de Canhão"), e, é claro o Alfred (que por mais que ele tenha sido como um pai para Bruce, a relação deles é mais uma relação de Avô e Nete do que propriamente de pai e filho - ao meu ver)

Bom, eu não vou fazer a qui minha análise psicológica, as só coloquei algumas coisas que penso sobre o personagem desde que o conheci, há 20 e tantos anos atrás.

Alvaro Trigo fernandes. disse...

Eis a questão:

Batman é um personagem bastante "mutavel". por isso, embora eu tenha aproveitado meu conhecimento sobre outras HQ's do personagem, me baseei naquelas citadas (principalmente DK1).

abraços!

silvio disse...

Legal. Esse debate é importante. Já leu o meu livro, o Dicionário do Morcego? Lá eu trato também do tema psique de Batman. Meu e-mail é dicionariodomorcego@gmail.com ou no Orktut. Abraço.

Ohio disse...

Hum...
Interessante.

César A. disse...

Voltando a questão das datas, elas podem até ficar "implicitas", mas só se você tivesse referenciado o ano em que elas, as canônicas, foram publicadas. Veja, você cita quatro obras marcantes e não põe as datas entre parênteses, por isso, o leitor que nunca leu essas revistas, ou se leu apenas os scans (que normalmente vem sem a "ficha catalográfica") não teriam idéia do movimento que foi realizado na reformulação de muitos personagens no mesmo período no qual as histórias do Batman ficavam mais adultas e sombrias. Só pra citar um exemplo temos o Alan Moore em meados dos anos 80, do século passado, praticamente reinventado o Miracleman, que ressurge num "fututro" bem sombrio, sem falar no Monstro do Pântano. Isso foi só para dar um exemplo, o que quero dizer é que houve uma mudança na indústria e na forma de fazer quadrinhos nesse período. Mas fica apenas como mais um elemento para o debate.
Abração parceiro

Marco Dark Knight disse...

Achei muito boa a análise. Gostaria de saber sobre sua monografia, vê-la se possível. Meu e-mail:
marcodarkknight@hotmail.com

YinYang disse...

Gostei bastante da sua opinião, na verdade, quando estava procurando uma análise psicológica do coringa, que me deixou muito curiosa, e acabei me batendo com esse post. Algumas opiniões suas me deixaram emcabulada, porém como só assistir aos filmes, não li as HQ, não poderia discordar de tal forma. Como estudante de psicologia, adoraria ler a sua monografia, se possível envia pro meu email! Abraços.

celazaidem@gmail.com