Passei este ultimo final de semana na casa da minha namorada. Como sempre, a tarde de domingo se tornaria meu maior pesadelo...
Depois de gastar toda a bateria do notebook combatendo o crime em Los Angeles (eu sou elite no S.W.A.T. rapá!!), ler o todas as matérias das minhas revistas que estavam lá, e constatar que não tinha trazido nenhum livro, cheguei a horrenda conclusão que me restava a televisão como único entretenimento possível. Sem muita alternativa, me acomodei no sofá e fiquei esperando pra ver o que ia passar. Curiosamente, até que não foi tão ruim (quer dizer, foi horrível, mas pelo menos deu pra tirar algum proveito – que nem quando se come espinafre :-P) e meu domingo televisivo deu caldo para dois pequenos artigos. Que a minha agonia sirva para entretê-los e instruí-los, ó leitores!!
:-P
As verdades e Mentiras de Agnaldo Timóteo
Existe um programa no SBTrolha chamado “Nada Além da Verdade”, onde (sub-)celebridades submetidas a um detector de mentiras respondem a perguntas (constrangedoras ou não) feitas pelo homem do Baú. Se contar sempre a verdade (ou for muito bom mentiroso), o mané pode faturar um premio de até 100 mil reais (hummm é do Silvio... será que é em “barras de ouro que valem mais do que dinheiro”??).
Em outras ocasiões já tinha visto parte desse programa (como quando a Mara Maravilha se ferrou haiuhaiuahiuahuihaiu). Aliás, o “detector de mentiras” parece ser a nova coqueluche televisiva, sendo explorado a exaustão por diversos canais e programas toscos...
Mas voltemos ao assunto principal. A vitima da vez era Agnaldo Timóteo, conhecido mala sem alça e metido a besta. Apesar de achar ele um porre (ou principalmente por isso), resolvi assistir o programa na ânsia que ele desse um “escorregão” e se... (como seria o termo?)... se fodesse (é, era esse mesmo o termo).
Mas as coisas não estavam caminhando da forma que eu queria...
O baixinho respondia com desenvoltura as perguntas mais cabeludas: se já tinha feito “trafico de influencia”, se era a favor da pena de morte, se considerava-se o cara mais esperto da família...
Ele não tinha medo de expor nenhuma de suas opiniões, e eu já estava achando que ficaria sem a preciosa satisfação de vê-lo tomar no “butão”... mas quando já estava sem muitas esperanças, na penúltima pergunta do programa, Agnardo Trimóteo é pego pela maquina!! E por uma pergunta que parecia nem tão “ameaçadora” assim (P:"você acha que seus amigos o consideram chato" R: sim)!!
Entender como Agnaldo se ferrou é o que propõe esse artigo (sim, essa era só a introdução :-P). Se não viu o programa e quer entender melhor a coisa, veja ele pelo youtoba. Se não, ao menos assista ele se ferrando (anexo no topo do artigo).
Como funciona o detector de mentiras
O detector de mentiras (Polígrafo, para os íntimos) é um conjunto de equipamentos que mede alterações físicas na pessoa avaliada (batimentos cardíacos, a pressão arterial, a freqüência respiratória etc). Os resultados obtidos são avaliados por um profissional especializado, que assim determina se as mudanças corpóreas indicam uma mentira ou não.
Geralmente os resultados obtidos com a maquina são bastante confiáveis, mas - como tudo na vida - nunca infalíveis. Se quiser saber um pouco mais como funciona o breguete antes de ler meu artigo, clique aqui.
O desempenho geral de Agnaldo Timóteo
Pra quem assistiu o troço (pela TV ou pelo Youtube), deve ter notado como ele não tem papas na língua para as perguntas mais escabrosas. Então como ele se ferrou com uma pergunta tão “bobinha”?
A primeira resposta possível é que o Polígrafo se equivocou. É uma possibilidade. Mas é uma possibilidade pequena (além do fato que eu não perderia tempo escrevendo esse artigo se eu acreditasse nisso).
Outra possibilidade é que Timóteo tenha conscientemente mentido, sabe-se lá porque. Acho improvável. Ele respondeu convictamente perguntas piores, alem do fato de que se respondesse “não, meus amigos não me consideram uma pessoa chata”, seria ainda melhor para ele (que "se acha" pra caralho). De toda forma, reitero que isso é bastante improvável.
Então, o que teria acontecido para que Timóteo se estropiasse? Tenho duas pequenas teorias...
1ª teoria: “merda... eu sou mesmo...”
O polígrafo é um conjunto de vários aparelhos de avaliação médica. Como é um conjunto de trambolhos bem pouco “fotogênicos” (e para evitar que o “Nada além da verdade” pareça com cenas de “Jogos Mortais”) os testes no detector são feitos antes do programa em si. Nessa etapa, a “celebridade” responde varias perguntas (mais do que responderá no programa em si).O convidado não sabe se o que respondeu foi dado como verdade ou mentira, e 20 das perguntas feitas anteriormente são repetidas no programa. Sendo assim, o polígrafo não avalia a resposta dada no programa, mas sim a mesma resposta dada anteriormente pelo participante.
Então vamos a alguns fatos facilmente confirmáveis: 1- o polígrafo pode ser “disparado” por outros fatores que causem alteração nos sinais físicos (como stress, insegurança). 2- Agnaldo Timóteo se acha o “gostosão da bala chita”. Agora imagine o seguinte: questionado sobre a própria chatice (assunto o qual ele nunca deve ter pensado a respeito, já que, a priori, todo chato nunca se acha chato), Agnaldo foi obrigado a pensar sobre o assunto (e assim responder). Como não é burro (não muito), ao refletir, ele chegou a conclusão que é sim um chato. Só que ao mesmo tempo que respondeu sinceramente, a constatação de tal fato o deixou “nervoso” (nada é pior para um chato do que a consciência da própria chatice). Assim sendo, as alterações físicas causadas pela decepção de se descobrir um chato fizeram com que o polí (detector de mentiras, para os ainda mais íntimos :-P) acusasse a resposta de Timóteo como mentira, embora ela fosse uma tremenda duma verdade – e a verdade quase sempre dói (ui)...
2ª teoria: “sei que sou chato, mas sou tão legal”
Uma coisa que fica bem clara durante o “Nada Além da Verdade” com Timótinho, é que Agnaldo é uma pessoa que efetivamente, “se acha”. Ele não é daquelas pessoas que fingem autoconfiança e arrogância (sim, tem pessoas assim), mas acredita piamente em suas próprias qualidades e opiniões (por mais absurdas que possam parecer aos olhos dos outros). Talvez a percepção que ele possua sobre ele mesmo possa ser equivocada, mas é efetivamente sincera.
Então como raios ele errou ao responder aquela pergunta??
Existe uma pequena teoria minha que envolve o “sentir X saber”. Ainda não a desenvolvi plenamente, mas trata essencialmente da ambigüidade humana; de conhecimento lógico versus percepção sensível.
Resumindo bem a bagaça: sentimentos e conhecimento são coisas diferentes. Ex: eu sei que as possibilidades de eu morrer trocando a lâmpada são ínfimas, mas mesmo assim tenho medo de altura; a moça sabe que o namorado é um tranqueira, mas mesmo assim ama ele; uma mãe sabe que é impossível ela ser culpada pela morte acidental do filho, mas mesmo assim ela se culpa, etc.
Bem, acho que deu pra entender o conceito geral... voltemos a Agnaldo Timóteo.
Ao ser questionado sobre sua própria chatice, ele foi obrigado a pensar a respeito do assunto... Chegou a conclusão que era chato sim (obvio), e respondeu o que pensou ser a verdade (só que o polígrafo acusou como mentira). Mas perae... se ele respondeu com sinceridade, por que a maquina acusou como mentira??
Ora, caros leitores, pela diferença entre saber e sentir. Agnaldo sabe que é chato, mas não se sente sendo chato (senão deixaria de ser chato, pois ser chato é muito chato:-P). sua resposta expressou uma conclusão lógica, mas esta longe de refletir a opinião real que ele tem sobre si mesmo (que, como se pode constatar pelo resto do programa, é extremamente superlativa). E sem ao menos se dar conta disso, Agnaldo mentiu para o polígrafo, perdeu uma boa grana, e deixou a tarde desse nerd um pouco mais divertida. Até que ver televisão é legal as vezes, não? XD
A luta de Classes no "Domingo Legal"
Pouco depois, ainda no canal do homem do Baú, começou o já tradicional (e maldito) “domingo legal”. Os quadros do programa do Gugu sempre seguiram a mesma estética mequetrefe de sempre, que é a de provocar ou estimular emoções baratas no espectador (geralmente das classes C, D, E... até Z :-P). Assim sendo, geralmente o programa se sustenta encima de quadros melodramáticos ou apelativos (não é só o Gugu que faz isso: Luciano Huck, por exemplo, faz a mesma merda. Mas por parecer menos brega e ter um cenário melhor, são poucos os que consideram Lucianeta “apelativo”).
Um dos quadros mais “imprensa marrom” do programa do Gugu é um chamado “Aconteceu Comigo”, onde geralmente é contada uma história bregodramatica de “superação”, como o caso do menino que foi atropelado duas vezes.
Refém das circunstancias (não existe nada mais aterrorizante do que outra pessoa com o controle remoto :-P), me vi obrigado a assistir o programa. O que eu definitivamente não esperava era que veria um exemplo perfeito de luta de classes ali...
Luta de Classes é um conceito marxista. Basicamente, se refere a um conflito entre duas classes sociais opostas (Dominantes X Dominados). Apesar de eu não ser Marxista, e da minha interpretação da “Luta de Classes” ser ligeiramente diferente da Marxista (um dia ainda falarei melhor disso), esse é um dos conceitos em Ciências Sociais que eu mais respeito.
Mas mudemos de assunto por hora... vamos falar de literatura!!
Na opinião de muita gente (a minha inclusive), a melhor metáfora sobre esse embate foi mostrado na obra “A maquina do Tempo”, do escritor H.G. Wells. No referido livro, ao viajar para o futuro, o personagem central se depara com uma “sociedade” dividida entre dois seres distintos: os Eloi (frágeis, felizes e bobinhos) e os Morlocks (seres monstruosos e repulsivos do subterrâneo).Na trama, os Elois vivem numa condição de “mordomia aparente”, enquanto os Morlocks são condenados a viver em condições precárias... em compensação, os Morlocks capturam vez ou outra um Eloi babão para comer (no sentido gastronômico mesmo :-P). Se você não for retardado já deve ter entendido que os Elois simbolizam a elite, enquanto os Morlocks, o povão.
Agora, voltemos nossa atenção novamente para o quadro do “Domingo Lerdal”. A história exibida nessa edição era sobre um menino na faixa de 13 anos que praticava corrida de Kart (aparentemente, era semi-profissional) e fora ferido na área do peito por uma linha de pipa contendo cerol (o estrago foi feio. Cortou ligações musculares, veias e até osso). Como é de praxe, apesar das dificuldades passadas pelo garoto, ele foi atendido no Hospital Albert Einstein e tudo correu bem - e eles foram felizes para sempre :-P.
Ai você se pergunta: “Mas o que essa porra tem a ver com luta de classes??” Tudo, eu lhe respondo.
Se um garoto tem como Hobby andar de Kart (coisa bem cara), provavelmente é rico. E qual é a diversão principal de garotos pobres e remelentos? Pipas!!
Apesar de eu ficar devendo dados estatísticos*, a Pipa é obviamente a principal diversão de garotos na periferia: é barata de se construir e só precisa de um pouco de vento pra funcionar. O uso de Cerol também é lugar comum na vida desses garotos (já que propicia um pouco de competição e emoção em algo que, a principio, é bem maçante). O uso de cerol provoca muitos acidentes, mas a maioria das crianças que o usam ignoram tal fato ou fazem vista grossa a ele (é praticamente a única diversão que eles tem, e não vai ser fácil convence-los a abandona-la).
Há uma ironia cruel em um garoto de classe alta (Eloi) sendo ferido pelo principal meio de diversão das crianças pobres (morlocks)...
Ao contrario de alguns colegas marxistas (não todos), não sinto prazer nenhum com o derramamento de sangue de “crianças burguesas” (não acho que o garoto que se feriu com cerol “mereceu” sua sina). Também não tenho a ilusão de um futuro onde não haja classes sociais. Mas, ainda assim, Tenho esperança em um mundo mais justo – onde existam sim diferenças sociais entre as pessoas, mas estas não sejam tão gritantes quanto as que ocorrem “hoje”.
Enquanto isso, vivemos em um mundo onde criança nenhuma esta efetivamente segura... com a diferença que as “crianças morlock”, quando vitimadas pelo destino, geralmente morrem antes mesmo de serem atendidas - e que suas histórias (sem final feliz) não costumam cair tão bem na grade dominical.
* por falta de estatística, tenho conhecimento empírico de sobra: minha namorada mora na periferia de Ibirá (não é a mesma coisa que uma periferia mesmo, mas dá pra tirar uma base) e ano passado dei aula na periferia de catanduva (nota morbida adicional: o irmão de um dos alunos morreu atropelado ao correr atrás de uma pipa).
PS1: Uma outra boa obra sobre luta de classes é o filme brasileiro “O invasor”.
PS2: esse blog continua em manutenção parcial.
PS3: curiosidade Nerd - o cara que inventou o polígrafo também é o criador da Mulher Maravilha!!

