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sexta-feira, 28 de março de 2008

Post especial de Páscoa Nº2: “perdoa-os Pai, pois não sabem o que fazem”

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Se você atentar para as mídias no período da páscoa, vai notar que apesar de uma ou outra reportagem sobre chocolate e coelhos, a maior parte delas foca o lado religioso da coisa. É missa pra cá, filme bíblico para lá, reportagem tosca acolá... porém, o que pouca gente percebe são as incongruências e tosquisses presentes nessas abordagens. Assim sendo, esse artigo visa comentar as coisas mais toscas que esse humilde escrevinhador já teve o (des)prazer de averiguar!!
Introdução (ui!)
Sou agnóstico. Essa é minha postura perante a religião. Respeito e convivo bem com a fé alheia, mas sou essencialmente um cético, um “duvidador”, um cientista (e nerd). Apesar disso, o que me impede realmente de freqüentar qualquer religião que seja não é minha crença (ou não) em uma divindade superior...
O que realmente provoca meu desinteresse por freqüentar algum “culto” são dois motivos simples: 1- A maioria dos cristãos nunca sequer leram a bíblia (quem dirá entender o que tá escrito); e 2- Os cristãos em geral são hipócritas com relação a própria fé, sendo em suas atitudes bem pouco (errr...) cristãos.
Sendo assim, como vivo explicando teologia pra cristão (!!) e a maioria deles é tão (ou mais) feladaputa quanto o resto da humanidade, não sinto ímpeto nenhum em fazer parte de alguma “comunidade fraternal de amor ao próximo” (muito “amooorrrr” ¬¬).
Apesar disso, esse texto não terá um foco “ateísta”. Ao analisar os eventos abaixo, vou julga-los por fatores simples como “tosquisse”, erro histórico e erro de interpretação. Se você for um religioso não-fanático, aposto que vai concordar com a maioria das minhas argumentações (apesar do meu senso de humor meio corrosivo...:-P).
A Paixão de Gibson
A paixão de cristo é provavelmente a adaptação sobre a vida (ou seria morte? :-P) de Jesus que alcançou maior visibilidade. Infelizmente, é provavelmente a pior delas.
O filme ganhou fama de ser “historicamente verossímil”. Nada mais longe da verdade... o filme esta longe de ser até mesmo “biblicamente” verossímil!! Com exceção de cenários muito bem reproduzidos, um figurino competente e o fato dos personagens falarem na linguagem da época (latim, hebraico e aramaico); todo o resto do filme tem a consistência histórica-biblica de um pudim.
Seria a culpa então de Mel Gibson? Sim e não...
Vamos aos fatos: Gibson é um Católico ultra-conservador, e seu filme retrata a visão de... um católico ultra-conservador! Não é exatamente culpa dele se o publico encarou sua visão dos fatos como “precisa” (ele apenas tava sendo fiel a própria concepção de fé – que diga-se de passagem, é uma merda).
Embora o filme se diga baseado nos “evangelhos”, sua base real é outra: arte sacra. Como todo católico, Gibson não é muito amigo da leitura; ao mesmo tempo, a maioria das Igrejas católicas são ricamente ornamentadas com pinturas que retratam a “paixão” (e esse costuma ser o primeiro contato dos pequenos católicos com a historia de cristo). Essas pinturas tem sua origem na idade média, e servia ao propósito simples de servir de “infografico” para a população iletrada. Como os católicos geralmente só pegam na bíblia pra pedir milagre, a maioria nunca supera essa visão simplista da história de cristo - e Gibson não é exceção. A visão de Gibson é exatamente essa: a de um católico médio. Seu filme nada mais é do que a versão live action das pinturas que ornamentam igrejas!! Mas este esta longe de ser o problema principal de “A Paixão”...
Se fosse apenas mais um filmeco pra gente iletrada conhecer a história de Cristo, ainda assim “A Paixão” teria seus méritos. Mas seus defeitos são mais profundos: Gibson se acha no direito de alterar os “evangelhos”; abusar do maniqueísmo e reduzir a importância da vida de um homem a apenas um momento (sua própria morte). Todas essas características aparecerão nos itens listados abaixo:
“Abuso policial”: Jesus é traído por Judas e entregue aos soldados do Sinédrio. Ao passarem por uma ponte, os soldados aproveitam pra jogar Jesus (que estava acorrentado) lá embaixo. Pouco depois, eles pescam Jesus de novo pra cima.
Essa cena é ridícula em todos os sentidos possíveis. Alem de não existir leve menção a maus tratos por parte dos soldados judeus nos evangelhos (até mesmo no de João, que é claramente anti-semita, não há uma linha sequer sobre isso), tal cena é inverossímil por outros fatores: Se imagine no lugar dos soldados (se quiser, faça a relação com seu equivalente moderno: um policial). O teu chefe te acorda de madrugada pra pegar um cara qualquer e entregar pra ele. Você vai lá, cortam a orelha de um colega seu, mas o cara que tu foi prender cura ela milagrosamente. Resumindo: você esta com um puta dum sono e seu prisioneiro nem oferece resistência (pelo contrario, a proíbe). Porque diabos você perderia tempo aporrinhando ele?? Não seria muito mais vantajoso apenas entregar ele logo pro teu chefe e ir dormir??! E porque você jogaria o cara duma ponte? O prisioneiro ainda ia ser julgado e poderia morrer com a queda (não foram uns cola brincos do Capitão Nascimento, e sim uma queda de vários metros). Você arriscaria ser castigado (ou morto) pelo patrão apenas em nome da “diversão brucutu”??
“Pede pra sair”: A narrativas sobre o suplicio de Cristo são bem curtas na Bíblia (provavelmente porque não era muito importante para os evangelistas tal relato). “A Paixão”, por sua vez, dedica quase duas horas a mostrar toda a porrada que Jesus levou. Dessas a cena mais marcante é a do açoitamento. Gibson conta uma a uma as chibatadas que um prisioneiro deveria levar, e as mostra com detalhismo imenso. Manuseando o chicote, um Romano “Gordim” parece estar comendo a Juliana Paes de tão feliz...
O intuito dessa cena é ser grotesca mesmo. Quanto ao chicoteamento, salvo exageros masoquistas, não há nada de mais na cena. Era isso mesmo que acontecia. O problema é o soldado. Se imagine no lugar do Soldado (já viu Roma? Imagine alguém como Vorenus): você teve que ir praquela droga de Palestina porque é páscoa e as chances de uma rebelião é grande. Cê deixou tua família em casa, o lugar é perigoso, e ao contrário de campanhas de conquista, a única coisa que vai receber por isso é o soldo normal. Você é soldado porque seu sonho era matar e espancar gente? Talvez. Mas talvez você seja soldado porque era a única coisa que você poderia fazer...
É possível que a porra do soldado incumbido do chicoteamento fosse um “psicopata” (quem pode dizer com certeza?). Mas as chances dele ser só um cara normal são muito maiores. Veja muitas das pessoas que ajudaram direta e indiretamente Hitler em sua política de extermínio aos judeus e você contastará que a imensa maioria deles eram pessoas comuns. É o que a teórica política Hannah Arendt postulou na sua tese sobre a “banalidade do mal”: pessoas comuns são capazes de coisas terríveis, desde que sejam “padrões sociais”. E quer saber? Eu acho muito mais assustador uma pessoa que pratica algo ruim por comodidade do que uma que pratica por prazer (este pelo menos tem a desculpa de ser um “doente”). Se o soldado se comportasse como um cara normal fazendo um trabalho terrivel, pelo menos a cena serviria como reflexão sobre nossa passividade em relação a coisas cruéis. Mas do jeito que foi mostrado, só serviu ao maniqueísmo típico de hollywood (e das religiões em geral).
“Xô Satanás!!”: Durante todo o suplicio de Jesus, uma figura andrógena e enigmática acompanhava todo o processo, parecendo se divertir muito. É o tinhoso em pessoa.
Por que diabos o capeta (sim, péssimo trocadilho :-P) iria se divertir com a morte de Jesus sendo que isso seria um tremendo prejuízo pra ele?? Se a morte de Jesus significa uma nova aliança onde nosso pecado original foi lavado, isso não deveria ser motivo de preocupação pro capeta? Quando Cristo “vence a morte” não é a mesma coisa que dizer para Satã “Chupa Mané”? Não na cabecinha de Mel Gibson...
“Se eu pudesse eu matava mil!!”: Pilatos pergunta aos “Judeus” se eles preferem que seja solto Jesus ou Barrabás (que parece uma mistura do “Mendigo do Show do Tom” com o “Jeremias”). O povo vota por libertar Jere... ops, Barrabás.
Vamos a alguns fatos históricos: a crucificação era a pena romana para rebeldia política e Jesus ia ser crucificado como possível rebelde. Barrábas também ia ser crucificado, logo era algum tipo de rebelde (provavelmente um Zelota ou Siccari).
Assim sendo, Barrabás dificilmente pareceria o “vilão de desenho animado” que o filme mostrou. Ele seria mais parecido com algum tipo de líder carismático, e não com um Bebum. Ele dificilmente daria risadinhas ao ser escolhido pelo povo, mas sim manteria uma postura de “um dia mato esses romanos”.
E por que o povo escolheu Barrabás? O Messias que os Judeus esperavam era um messias guerreiro (assim como Davi fora outrora), alguém que libertasse seu povo do jugo romano (e não alguém que trouxesse uma “nova aliança”). Quando chega a Jerusalém, Jesus dá claros indícios que seria o “estilo Davi” de messias: ataca os mercadores do templo e avisa que vai destruí-lo (tal ato é extremamente forte simbolicamente, já que os Fariseus exploravam a população juntamente com Roma).O povão “delira” com a possibilidade de alguém finalmente chutar o rabo dos invasores romanos e da corja que os apóia. Por sua vez, Jesus em seguida faz......... nada
O povo tava “no maior gás” imaginando que Cristo ia “quebrar o pau”, imagina quando eles vêem seu possível messias porradeiro entregue aos romanos (e sem resistência)?? Que tipo de messias é esse que aceita ser humilhado e não resiste?? Cadê a porrada?? Vendo que Jesus não era o tipo de messias que esperavam, o povão preferiu o bom e velho Barrabás (que pelo menos matou uns romanos, ora pois!).
Novamente, Gibson perdeu uma bela chance de refletir sobre a tendência humana para a violência. A mudança que Jesus propunha era moral (e não de estado). Não era uma questão de subjugar Roma, mas de criar uma sociedade mais tolerante (“dê a outra face”). Se mostrasse Barrabás como realmente era (alguém que usa da violência na tentativa de criar um mundo mais justo), Gibson teria uma ótima metáfora sobre a tendência humana a resolver tudo pela força. Seria mais ou menos como dizer “as pessoas sempre preferem o caminho da violência ao da tolerância”...
Mas nããããoooo... Gibson preferiu criar uma cena clichê onde os “judeus” parecem se divertir ao libertarem um porra-louca no lugar de um pacifista. Parabéns Gibson!! De certa forma você criou uma ótima metáfora sobre maniqueísmo e ódio gratuito (seu filme como um todo)...
“Toma no zóio, ímpio da porra!!”: Jesus esta sendo crucificado junto a dois transgressores. Um deles acredita que ele é o messias, e recebe a promessa da vida eterna. O outro escarnece dele, e um corvo lhe arranca os olhos.
Você já notou como nos filmes todo vilão geralmente morre? Eles não são presos nem nada, apenas morrem (porque o “mocinho” os mata ou porque eles tropeçam em algo :-P). essa cena descrita acima mostra com perfeição esse tipo de clichê: nos evangelhos, a cena se resume a um “salteador” que duvida do “messias” e outro que o aceita. Só. Nada mais. Nothing more. Necas.
Então por que Gibson resolveu colocar a porra de um corvo ali? Primeiro o velho clichê cinematográfico que de que o “mal” sempre tem que se ferrar (apesar do cara já estar bem ferrado). Segundo, porque Gibson é um retardado que acha que Jesus concordaria com punir um “ímpio” a beira da morte. De amargar...
Bem, era basicamente isso... Alguns outros pontos pertinentes sobre a visão de Gibson serão comentados nos outros tópicos, então não vejo porque trata-los especificamente aqui. Mas fica a lição: “A Paixão” é um filmeco sado-masoquista feito por um Católico fanático que nunca leu a bíblia – tenha isso em mente se for assistir O_o.

Sinta o amor de Jesus no coração – ou morra :-P
Vocês se lembram do meu post sobre Agnaldo Timóteo? Esse fato que narrarei ocorreu no mesmo programa que eu comentei.
Como todos sabem, Agnaldo adora “pagar de crente”. Ao ser questionado no “Nada Além da Verdade” sobre sua opinião sobre a pena de morte, ele respondeu que era a favor. Nada contra. Eu também sou a favor em muitos casos. O problema é que o fulano se alega “cristão”...
Para piorar o fato, Silvio Santos perguntou a uma das pessoas que o acompanhava (acho que era irmão dele, sei lá...) o que achava da resposta de Agnaldo... e o cara, como bom “cristão” (¬¬) respondeu: concordo. Jesus disse “ame o próximo como a ti mesmo”, mas também disse que “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. (NOTA: ele poderia ter citado uma das “trocentas” argumentações pró-violência do Antigo Testamento. Mas preferiu colocar Jesus no meio do rolo...)
Analisemos então toda a babaquice envolvida na resposta do asno:
Vamos aos fatos: Jesus não era necessariamente uma pessoa “boazinha”. Ele ameaçou muita gente de queimar no “Hades”. Embora eu faça uma leitura metafórica sobre esse “Hades” (um dia explico melhor), se for considerado literalmente, a postura de Jesus seria algo como “respeito sua vida, mas você vai pro inferno depois mané”. Apesar disso (ameaçar tormento eterno), Jesus nunca (eu disse NUNCA) estimulou a agressão física contra ninguém (quem dirá insinuações pró pena de morte). Pode-se argumentar que ele expulsou os comerciantes do templo a força, mas isso não significa que ele pegou seu grupinho de seguidores e espancou os caras (provavelmente o que ele fez de fato foi quebrar gaiolas, chutar as mesinhas, espalhar as moedas etc - coisa bem mais amena que pegar eles de soco ou matar eles).
A coisa fica ainda pior se levarmos em conta o contexto da frase que o trouxa usou na sua justificativa. O momento em que Jesus proferiu essa frase foi logo depois de curar a orelha do soldado (que Pedro arrancou). A frase foi dita ao apostolo como repreensão pela sua atitude violenta. Basicamente, o que ela significa é “se você viver em violência, um dia essa violência se voltará contra você”. Só que na interpretação do otário, ela significaria mais ou menos isso: “toda pessoa violenta deve morrer, pena que Pedro é tão ruim de mira e não cortou a cabeça dele...”. Perceberam a diferença??
Se a frase de Jesus aponta a conseqüência das pessoas que vivem “pela espada”, a versão corrompida justifica esse tipo de vida: pode-se e deve-se matar pessoas “que merecem”. Se esse cara tivesse vivo na época de Jesus, provavelmente seria mais um na multidão a gritar “Barrabás, Barrabás!!”.
E fiquemos com mais uma lição: Ao contrario dos Católicos, os evangélicos lêem a bíblia – pena que não entendem porra nenhuma.

Repórter Record: Recorde de idiotice (sim, isso é um trocadilho infame)
Todos sabem que a Record é o canal do “bispo”. Apesar disso, sua programação nunca fez muita questão de ser focada em uma conduta cristã. A Record é essencialmente um canal que pertence uma religião, e não um canal pra falar de religião. Apesar desse lado mais secular, é impossível não notar a influencia dos “donos” em algumas ocasiões.
Não se contentando em exibir (pela bilionésima vez) filmes bíblicos da década de 1970, nessa páscoa a Record resolveu por ela mesma a mão na massa. E o resultado foi uma titica...
O tema da reportagem foi basicamente o seguinte: nos vamos até o monte Ararat, o lugar onde a arca de noé desceu após o dilúvio!! Será que descobriremos destroços da Arca??
Mas onde estão os fatores que tornam tal fato ridículo? Se fossemos levar pelo caráter mais secular, o assunto tratado já seria ridículo. A maioria dos Judeus e teólogos cristãos moderados consideram o fenômeno descrito na Bíblia (a inundação do mundo todo) apenas simbólico, ou quando muito, a interpretação limitada do povo que escreveu a historia sobre um fenômeno local (ou seja, houve um dilúvio, mas não “universal”).
Mas a reportagem também ousa ir por caminhos (ainda) mais ridículos... notou como eles afirmam com convicção que o referido monte é com certeza o monte onde a arca desceu? Pois bem, isso nunca foi certeza para ninguém. Não existe referencia ao nome do monte na Bíblia, apenas a região (Ararate, na Armênia). A possibilidade de ter sido o Monte Ararat em especifico é apenas especulação (cujos argumentos têm pouca consistência cientifica).
Num dos momentos mais “sublimes” da reportagem, o repórter que escalou o monte reclama do frio extremo (o topo é congelado) e diz: “como será que Noé e sua família conseguiram enfrentar essas adversidades?”. Se eu estivesse lá, diria a meu colega “sofista” isso: “muito provavelmente porque (caso tenha havido mesmo um dilúvio) não foi nessa porcaria de monte íngreme e inóspito que Noé desceu ¬¬”. O pior mesmo dessa reportagem não foi o foco bíblico (dá pra se falar sim de assuntos biblicos sem cair no ridículo), mas a tentativa podre de fazer os telespectadores deliberadamente de idiotas. O motivo que aparentemente levou a produção de tal programa não foi a fé no eventos tratados, mas os pontos no Ibope garantidos por gente simples – alias, enganar gente simples parece ser é um dos talentos mais desenvolvidos de Edir Macedo O_o.

"Ciência Cristã"
Existe um documentário realizado pela BBC chamado “Jesus, o filho de Deus”. Foi produzido há um bom tempo atrás (é nele que aparece a polemica reconstituição do possível rosto de Cristo); e lançada depois pela abril em DVD. Apesar de ter um foco excessivamente teísta (nunca se leva em conta a possível infidelidade dos evangelhos em relação aos fatos, ou mesmo se menciona os apócrifos), é um bom documentário (reproduções cênicas impressionantes e boa abordagem para leigos). Ainda assim, teve um trecho que seria hilário se não fosse tão bizarro...
A crucificação é um mistério para historiadores modernos. Faltam documentos descritivos, ossadas das vitimas, e desenhos que a representassem (os desenhos que ornamentam igrejas são de uma época onde tal pena capital já estava extinta). Apesar disso, alguns pesquisadores sérios tentam desvendar os detalhes obscuros de como realmente seria uma crucificação no séc. I. Um dos poucos consensos nessa área, é que se realmente fora pregado na cruz (a maioria dos condenados era amarrado), o local onde iria tal prego seria o pulso (já que os tendões e músculos das mãos romperiam com o peso do corpo). Porém...
...O documentário mostrou um “véinho” cuja ambição era provar que Jesus poderia também ser pregado pelas mãos. Para tanto, ele realizara algumas experiências práticas: uma “cobaia” vestia uma luva especial (tal luva prendia apenas a área da mão), depois, o mané era pendurado em uma replica de cruz pelas “luvas”, e logo em seguida, tinha seus pés apoiados num “calço” da cruz. A conclusão em que ele chegou era que realmente o peso do corpo arrebentaria a mão do mané depois de poucos minutos, mas que ao ter seus pés firmados (ou pregados, se fosse há 2 mil anos atrás :-P), a pressão sobre as mãos cairia consideravelmente, tornando possível que os romanos prendessem crucificados pelas mãos.
Agora veremos todos os pormenores de “ridicularidade” envolvidos nas idéias do “véio”: 1- As imagens que retratam a crucificação de Cristo são da idade média. Quem começou a pintá-las não fazia a mínima idéia de como era uma crucificação de verdade, já que no inicio do cristianismo ninguém tava muito preocupado em retratar a morte de Jesus. Sendo assim, não são documentos históricos minimamente confiáveis. 2- o peso do corpo se alivia apenas depois da fixação dos pés. Se demorar muito, a possibilidade de romper a mão do crucificado é imensa. Por que os romanos se dariam ao trabalho de pregar alguém pelas mãos se a coisa podia dar merda tão facilmente?? Não seria mais esperto prender logo o cara pelo pulso (que agüenta o peso do corpo) do arriscar que o mesmo possa cair a qualquer momento?? 3- não bastassem esses “detalhes”, a experiência do cara tem erros simples de metodologia cientifica. Para realizar sua experiência, é obvio que ele não pregou ninguém (ainda bem). Mas os problemas de se crucificar alguém pelas mãos está além da resistência da mão como um todo (que é o que a luva do véio testa), mas sim da resistência dos músculos de uma pequena área!! Olhe para a sua mão... agora imagine um pregão atravessando o meio dela (entre o “seu vizinho” e o “pai de todos” :-P). agora imagine os 3cm de músculo xexelento que sobrou na parte superior da sua mão agüentando 50% do seu peso corpóreo. A menos que você seja bem burro, acho que deu pra entender que é impossível que esse pequeno trecho muscular agüente tanto peso (mesmo pelo curto período necessário para se “erguer” o crucificado).
Então por que esse véio dedica seu tempo e dinheiro nessas pesquisas furadas e sem noção? Ora, provavelmente porque é um católicozinho que cresceu vendo pinturas nas paredes da missa!! Não interessa verossimilhança histórica, ele quer é “provar” que as pinturas medievais tem “procedência”... Se esse não for motivo mais ridículo para alguém pesquisar algo, eu nem quero saber qual é!! O_o.
“Ilumina Jesus, porquê a coisa tá braba...”
Enquanto zapeava pelos canais de TV no período pascoal, me deparei com a apresentação de uma missa católica (não lembro o canal especifico, já que existem no mínimo três - !!!!). Na referida missa, uma velhinha dizia malomenos isso no sermão : “da mesma forma como quando Jesus pediu água aos romanos, e lhe deram vinagre; nós, com nossos pecados e negligencia continuamos a dar vinagre ao senhor”. Qual seria o erro grotesco nessa frase?
Bem, o erro é que a velhinha cometeu um equivoco histórico terrível (e bem comum): a de que o soldado tava sendo sacana com Jesus!! Na verdade, o soldado deu exatamente o que Jesus pediu, já que os romanos misturavam vinagre à água para dar a suas tropas (por motivos de higiene – vinagre é um dos mais antigos e eficientes desinfetantes). Por esse ponto, o coitado do soldado tava até sendo legal... e sem querer querendo, a pobre beata disse que pecar e negligenciar Jesus é algo positivo :-P.
“vendilhões do templo...”
Quando eu ainda estava na faculdade, fiquei bastante amigo de um pastor evangélico (que era bem gente fina). Como o cara era cabeça aberta, a gente discutia muito religião. Certa vez, ele me emprestou o livro “Analise da Inteligência de Cristo – o mestre dos mestres”, que havia comprado recentemente (e nem tinha lido ainda).
Na introdução o autor (Augusto Cury) se apresenta como um “psicólogo agnóstico” e diz que seu livro é “laico” (¬¬). Eu fui lendo maximo que pude, até que cheguei num trecho memorável de tão ruim: a intenção do livro era provar a imensa capacidade de Jesus como líder e companheiro. Para isso, ele menciona o trecho do evangelho de João em que Pedro ouve o galo cantar (após ele ter negado Jesus três vezes), e Cristo o fita com olhos firmes nesse momento. Cury afirma que tal fato é mais verossímil que o narrado nos outros evangelhos, já que “João foi o ultimo a escrever sua versão, e questionou Pedro já velhinho sobre os eventos daquela noite. E na flor da sua idade, Pedro se lembrou desse detalhe que antes passará batido nas outras versões. E como jesus era bonzinho, mesmo estando em situação tão terrível, ele deu um olhar de conforto ao seu amigo”.
Um Sonho de Valsa para quem perceber as duas babaquices imensas que Cury preferiu nessas frases!!
Dou-lhe uma...
Dou-lhe duas...
Dou-lhe três...
Nada?? Nadica mesmo?? Mesmo-Mesmo???
Tá bom vai, eu respondo: a primeira idiotice é a idéia que os evangelhos foram diretamente escritos pelos apóstolos do qual levam o nome. É praticamente consenso histórico-teologico que foram escritos pelos seguidores desses apóstolos, e não pelos próprios....
Mas esse primeiro erro é até passível de “relativização”, já que pressupõe uma interpretação teológica equivocada (coisa muito comum)... o segundo erro que é grotesco, já que mostra que Cury nem sabe interpretar texto!!
O segundo erro é pressupor que o olhar que Jesus possivelmente deu para Pedro era de conforto. Se vocês voltarem um pouco atrás na bíblia, vai ver que quando Pedro tenta “dar uma de gostoso” pra cima de cristo dizendo que “nunca o abandonaria”, Jesus lhe dá uma tremenda “tirada” dizendo: “antes do galo cantar, você me negará três vezes”.
É obvio que o bendito olhar que Jesus dirige a “Pedrão” significa “eu te avisei” - e não “fica sussa mermão”!! Como Cury já mostrou que não sabia ler logo no começo do livro, eu nem me dei ao trabalho de me aventurar pelo resto...

“Os animaizinhos, subiram de dois em dois!!”
Já que eu mencionei o bendito galo que canta “para Pedro”, eu não poderia deixar de citar uma das coisas mais bizarras que eu já vi na vida: um programa televisivo chamado “Criaturas Bíblicas”. Tal programa apareceu um dia desses no “TV Escola” (canal, em geral, com programas interessantes). Mas do que trataria esse programa?
Bem, em cada programa, é focado algum animal coadjuvante da Bíblia. O que eu vi envolvia o Galo que cantou pro Pedrim. Se o conceito geral do programa já parece ser uma coisa bem bizarra, a execução de tal idéia foi digna da pior overdose possível usando-se todas as drogas conhecidas pela humanidade: a introdução do programa é feita por uma mulher vestida ao estilo renascentista; a história em si é “animada” de um jeito tão bizarro que eu nem consigo descrever (é serio, é ver para crer); Jesus esta num bar (isso mesmo: um bar. Buteco, birosca, quiçaça etc) realizando a Santa Ceia (o galo tá com as galinhas embaixo O_o); todos os personagens se vestem com roupas estilo anos 70 (me lembrou Hermes e Renato); judas entrega jesus, que é pego pela polícia (é. POLÍCIA!! Os homi. Os gambé. A puliça O_o); Pedro nega conhecer jesus ao ser questionado pelos outros freqüentadores do "buteco" e o bendito galo canta; o galo é testemunha posterior da ressurreição de Jesus (a policia que matou ele?? Seria Capitão Nascimento naquele camburão? Óh, duvidas cruéis!!).
...
Perceberam o nível da coisa?? E eu que imaginava que o cristianismo condenava o uso de entorpecentes...
E por que nosso estado “laico” (sei, sei...) passa uma porcaria dessas?? Que cartão corporativo que nada, temos é que fazer uma CPI pra descobrir como alguém tem coragem de passar um troço desses na TV!! O troço é tão ruim que pode servir pro ecumênismo: budistas, hinduístas, cristãos, judeus, muçulmanos e ateus deviam se unir pra tirar isso do ar - os danos cerebrais nas crianças podem ser irreversíveis!!! :-P
Apenas pra finalizar...
Aqui encerro minha pequena coletânea de comentários sarcásticos acerca de obras religiosas toscas. Eu ia falar um pouco mais do assunto nesse post (o habito “cristão” de malhar judas”, frases clichês ditas pelo povão etc ), mas este texto já está muito extenso para eu tratar de tais temas aqui (fica para a próxima ocasião).
Por ultimo, dedico esse texto aos meus amigos que professam alguma religião (incluindo aqui o pastor, dois padres, e um seminarista): vocês sabem que apesar do meu humor cruel eu sou um bom samaritano!! Shalom!!
NOTAS ADICIONAIS:
1- Alguns dos clichês mais batidos de filmes bíblicos: Judas com perfil físico e psicológico do Dick Vigarista, Barrabás como um doidão, Maria Madalena como super-sexy, Jesus como um boneco de cera (quase inexpressivo) etc.

2- Eu fui ácido ao me referir a católicos e evangélicos, mas tais expressões não tem o intuito de servir como preconceito religioso. Foram usadas apenas em nome do humor. Se ainda assim você se sentiu ofendido, lembre-se que o bom cristão sempre perdoa os inimigos :-P.

3- Se quiserem saber um pouco mais sobre o Jesus histórico, acessem o site da super e vejam as matérias que já saiu sobre isso. Para um entendimento mais profundo, adquira um livro sobre o tema (mas ler a Bíblia já seria um ótimo começo)

4- Sobre o fato dos romanos terem sorteado a túnica de Jesus entre eles, isso não é nada cruel ou anormal (no ponto de vista da época): estavam apenas exercendo o direito de pegar espólios.

5- As citações aos filmes, reportagens, a bíblia e ao livro de Cury são “citações livres”: reproduzem o ponto de vista do autor, e não suas palavras exatas.
6- Apesar da tosquice do livro de Cury, ele vendeu muito bem e garantiu continuações (em um mundo onde “O Segredo” é Best-seller, isso nem é tão assustador :-P)

7- Meu lado maldoso gostaria de ver um “Criaturas Bíblicas” envolvendo um bode (ou um pombo) em “levítico” :-P
8- Sobre os maus tratos que os soldados infligiram a Jesus (coroa de espinhos, zombaria), não se esqueçam que isso foi depois que a sentença final foi dada por Pilatos.
9- tem gente que consegue ser pior que o tiozinho que tenta provar a crucificação pela mão...

domingo, 30 de setembro de 2007

Micro-critica: O grande truque (The Prestige, 2006 - Filme)



As micro criticas são criticas realmente pequenas, mais para comentários mesmo. Elas revelam apenas as impressões que as obras me deixaram, não se preocupando com pormenores (é meio como a conversa que a gente tem com os amigos depois de ver um filme...). Assim sendo, se você não teve contato com a obra analisada na micro-critica, você provavelmente não entendera nada – ou ficara sabendo de Spoiler’s . Leia por sua conta e risco.

Em determinada cena do filme, descobrimos como é feito o truque do desaparecimento (e posterior reaparecimento) do canarinho: o “primeiro” canarinho na verdade é esmagado (e consequentemente, morto), e posteriormente trocado por um "duble" (o "segundo" canarinho). essa cena, para mim, é a que melhor sintetiza o filme.
Um dos motes do filme é que as pessoas gostam de truques porque estes dão a elas um pouco de “mágica” que não existe na vida real (este triste, sujo e cruel). O outro mote do filme é mostrar como isso é verdade mesmo no “mundo da mágica”: atrás de toda a pirotecnia e maravilha dos truques, existe uma tonelada de pássaros esmagados, vidas quebradas, mãos sujas com sangue... “O grande truque” pode ter toques de Ficção cientifica, mas é mais cru e realista do que muitos filmes “sérios”. Não assista se gosta de “mágica” – você verá mais "pássaros esmagados" (reais e metafóricos) do que gostaria de imaginar...

Nota: 9

PS: Eu saquei a maior parte da trama logo no inicio do filme (o que não atrapalhou em nada a graça de assisti-lo): Cristian Bale não é o Batman, eu sou!! :-P

quarta-feira, 4 de abril de 2007

300: Propaganda de Guerra?


Estreou dia 30 de março, em circuito nacional o filme “300”, que narra uma versão da famosa batalha das Termópilas (onde pouco mais de alguns milhares de gregos peitaram algumas centenas de milhares de persas). Antes mesmo de “desembarcar” em terras brasileiras, o filme enfrenta algumas polemicas: em fóruns na internet e em comunidades do Orkut, se discute se ele seria na verdade “propaganda de Guerra” (ou ideológica, no contexto marxista) do nosso velho “Tio Sam”; ou uma simples peça de entretenimento. Este texto é a tentativa de sinalizar uma resposta satisfatória.

O Autor

Como o trailer anuncia logo no inicio, estamos diante de uma adaptação de historia em quadrinhos. É importante salientar que é baseada em um arco fechado (Uma mini-série com começo, meio, fim), não em um personagem estilo “pop”, como seria por exemplo, o Homem-Aranha. O trailer também nos revela que o autor da mesma é Frank Miller.
Para aqueles que não conhecem ao fundo o mundo das HQ’s, é importante salientar que Miller foi um dos maiores autores da chamada “nona arte”, sendo um dos responsáveis pelo destaque que a mídia recebeu na década de 1980. Dentre as obras primas de Miller, está uma história estrelada pelo Batman, cujo nome é “Batman - o Cavaleiro das Trevas”.
Embora para a maioria dos aficionados por HQ’s, “O Cavaleiro das Trevas” seja apenas uma das melhores histórias publicada em tal mídia, de fato ela é muito mais. Numa obra extremamente política, Miller cria um retrato bastante autoritário para o Morcego, ao mesmo tempo que o dota de um tipo de heroísmo revolucionário que nunca foi uma característica de Batman.
Outro fato interessante (baseada numa interpretação minha, mas fácil de se comprovar), é como Batman “transformou” Miller. Se antes de “O Cavaleiro das Trevas” Miller possuía uma visão mais liberal (vide suas histórias no Demolidor), depois de escrever seu épico envolvendo o Batman, centrou sua visão em um foco mais autoritário...

300: a história em quadrinhos

Em 1998, agora trabalhando para a editora Dark Horse, Miller resolve investir em uma versão própria sobre os eventos envolvendo Leônidas e sua Trupe de Espartanos. Tomando inúmeras liberdades criativas (300 pode ser qualquer coisa, mas é uma “qualquer coisa” bastante autoral), Miller coloca a mão na Massa.
Ao meu ver, o Leônidas de Miller nada mais é do que uma outra versão do Batman apresentado em “Cavaleiro das Trevas”. E Esparta seria uma nação povoada por inúmeros “Batman’s”. Todas as características que Miller inseriu no Batman de sua mini-série aparecem também aqui, seja a capacidade extraordinária de combate ou até mesmo as qualidades de liderança.
Mas aqui nos defrontamos com uma pista importante: por mais autoritária que seja a visão política de Miller, ele escreveu “300” bem antes do inicio da guerra do Iraque, do 11 de Setembro, e do choque derradeiro entre E.U.A. e as republicas Islâmicas. Já podemos eliminar a tese de que a HQ foi escrita como “ideologia”.

300: a realização do filme

Agora os paranóicos mais afobados devem estar pensando: “tá, a HQ é de 1998, mas o filme foi feito agora... será que ai não tem coisa?”. Bem vamos analisar isso também!
Embora marxistas gostem de acreditar na mídia como ferramenta ideológica de classes dominantes, reforçadora do status quo e blá blá blá, é obvio que não é bem assim. O que levou 300 a ser adaptado para o cinema foi a junção de fatores bem triviais...
Primeiro foi o sucesso alcançado pelo filme “Madrugada dos Mortos”, de 2004. Apesar de ser uma refilmagem (gênero que está em moda atualmente em Hollywood), o filme alcançou bom sucesso de critica (coisa rara em refilmagem...), publico e bilheteria. O diretor também mostrou ter talento para criar cenas impressionantes, alem de não precisar de muito dinheiro para produzir um longa decente.Assim sendo, o nome Zack Snyder (o diretor) encheu os olhos dos produtores de Hollywood, doidos para faturar mais verdinhas...
O segundo fator, foi o sucesso alcançado pelo filme “Sin City” (2005). “Sin City” foi uma adaptação literal de algumas histórias da serie de mesmo nome escrita por... Frank Miller!! Embora ninguém levasse muita fé no filme (que foi inovador em vários sentidos), ele alcançou relativo sucesso de bilheteria e impressionante sucesso de critica. Isso fez com que o nome de Miller passasse a ser bastante visado em Hollywood (Miller até conseguiu um filme pra dirigir sozinho, a adaptação de “The Spirit”)
Pronto: você tem um diretor competente em alta, um quadrinista (que já foi muito) competente também, e produtores safados querendo lucrar. Agora você bate tudo no liquidificador e surge a adaptação de 300.
Mas então... não teria nada a ver a guerra do Iraque com 300? Não. Pelo menos na decisão de adaptá-lo. Mas existe um fator interessante a se considerar... A atual onda de adaptações de HQ (bem como a alta que tal mídia alcançou recentemente) tem muito a ver com o clima americano pós 11 de setembro. Desse modo, 300 pode ser considerado um filho indireto da guerra Ocidente vs. Oriente (mas não um filhote direto e programado).

A trama na versão de Miller

O filme é uma adaptação quase literal dos Quadrinhos de Miller, com a diferença de que o filme acrescenta algumas cenas, e modifica alguns detalhes (acho que o mais perceptível pelos trailers é uma “humanização” do personagem Leônidas, e um aumento de relevância na trama de sua esposa, Gorgo). Mais pra frente iremos falar a respeito da versão em celuloide...Aqui vamos analisar a visão de Miller sobre a batalha das Termópilas, narrada em sua Graphic Novel.
A questão aqui não é comparar a HQ de Miller com a história verdadeira, ou mesmo com a versão de Herótodo sobre a mesma (também um tanto exagerada). O interessante é explicar a os conceitos da HQ sobre as próprias visões autoritárias de Miller. Em suma, o porque dos espartanos ser o que são na HQ.
O primeiro fato interessante, é que Miller transformou os Espartanos em “machos”. Os Espartanos, como todo bom grego, via como relação ideal o amor entre dois (ou mais :P) homens. Não obstante isso, ele transformou todos os demais gregos em “florzinhas”, como os “pederastas Atenienses”.
Miller também colocou os Espartanos lutando de “sunguinha”... Parece bobo, mas isso é essencial. Na verdadeira batalha, uma das vantagens que os Espartanos possuíam sobre os persas era o uso de armaduras de Bronze. Miller sabia disso (pois pesquisou imagens de referencia), mas ainda assim fez dos espartanos os “nudistas” da Idade Antiga. Ai vem a pergunta: Porque? Ora, muito simples, para aumentar ainda mais a macheza deles!! Os Espartanos, guerreiros imbatíveis, confiariam tanto em suas habilidades que não precisavam nem de armadura para lutar. Foi uma maneira de aumentar ainda mais a mítica sobre a coragem e destreza espartana.
Esparta era uma nação autoritária, onde o que prevalecia era a lei do mais forte. Os espartanos inspecionavam os recém-nascidos para ver se eles tinham alguma deficiência, e se eles tivessem, eram mortos. Não se admitiam “elos fracos” na sociedade Espartana. Embora Miller tenha alterado a “viadeza” dos Espartanos, ele manteve esse traço eugenista deles. Não bastando isso, ele coloca Ephialtes (o traidor de Leônidas e dos Gregos) como sendo um “deformado” Espartano, que conseguiu escapar do cruel destino reservado a eles na autoritária sociedade de Leônidas ...
A maneira como Miller retrata os Persas também é muito importante. Ele não se preocupa em atualizar os números para o consenso atual (de uma a três centenas de milhares), fazendo os Espartanos peitarem nada menos que um milhão de Persas (ainda assim ele não exagerou tanto como Herótodo, que colocou um numero três vezes maior :P)!! Miller também pinta os Persas como corruptos, alem de dar um jeitão todo efeminado ao imperador Xerxes...
Apenas pra encerrar o tópico: é fácil perceber que todos na trama que se opõem a Esparta ou são corruptos (o Oráculo), “viados”, covardes, fracos, ou a misturade mais de um desses fatores. E embora seja obvio, vale ressaltar que a trama é fascista, autoritária, parcial, homofóbica e eugênica. Mas é estupidez pensar que a trama não tenha também suas qualidades, e até mesmo um lado “poético”: é um ótimo épico, uma história de coragem e sacrifício, e um legitimo “produto pra macho”, do tipo em que se fica com vontade de socar alguém e de coçar o saco depois :P.

A trama na versão do filme

O filme, embora também glorifique o estilo de vida militar, não chega ao grau de “fascismo” contido na obra original de Miller. Embora ainda seja uma história potencialmente exagerada, maniqueísta, e cheia de erros históricos (eu disse cheia? acho que “entupida” seria um termo melhor :P); no cinema a história ganhou uma relevante “humanizada”.
Um ou outro discurso parecerão uma tremenda propaganda de guerra anti-Islã (principalmente o final), mas é bom lembrar que eles já existiam na HQ original, com pequenas mudanças. Mas o filme é muito menos reacionário do que poderia ter sido, já que não chega a ser homofóbico (apenas uma referencia aos pederastas atenienses) e nem a glorificar a crueldade interna de Esparta (como ocorre nas HQs), passando longe do nivel de "nazismo" que existe na HQ.

Semelhanças dos americanos com os Espartanos

Não é porque um filme não foi concebido como propaganda de guerra que ele não possa servir como tal. Nesse aspecto, vamos analisar semelhanças entre os espartanos e os americanos.
Para isso é preciso se levar em conta: 1- o modo como os americanos vêem a si próprios; e 2 - o contexto da trama em comparação com a campanha no Iraque. Assim sendo, vamos contar os pontinhos...

1 - Tanto os Espartanos quanto os Americanos podem ser considerados os melhores guerreiros de seu tempo. E ambos também possuem uma sociedade extremamente voltadas para questões bélicas.

2 - Embora os EUA sejam uma nação muito maior que o Iraque, é um tanto obvio que eles estão em menor numero dentro do país inimigo. Existem também inúmeras nações que “querem o couro” deles, principalmente no Oriente médio, sendo valida também a comparação entre a frase na trama: “100 nações cairão sobre vocês”. Sendo assim, no contexto da guerra, os americanos são uma minoria contra uma maioria.

3 – Tanto os E.U.A. quanto Esparta selecionavam “vencedores” e denegriam “perdedores”. Ambas as nações legitimam a lei do mais forte, mas nos E.U.A. você é humilhado durante a sua vida (principalmente no colégio), ao invés de te matarem quando nasce :P

4 – Os Persas são antepassados dos atuais habitantes do Irã, bem como indiretamente de vários outros povos da região. Se adaptarmos o fato de que pra maioria das pessoas “tudo aqueli povo lá é igual”(sic), os persas podem servir de metáfora para qualquer povo árabe ou praticante da religião maometana. Só para constar, o Irã se manifestou contra o filme, acusando-o de ofender sua memória.

5 – Embora para boa parte do mundo os “vilões invasores” são os americanos, não é assim que eles próprios se enxergam. Certos ou não, os americanos encaram sua campanha islã adentro como mera autodefesa, justa retaliação pelo 11 de setembro, ou defesa da “democracia”.

6 – também podemos comparar os Espartanos com os famosos Republicanos, classe política americana tão bem representada pelo nosso “amigo” Bush. Basta saber que republicanos também odeiam homossexuais, são meio fascistas, também acham que qualquer um que não concorde com eles são fracos ou corruptos, não curtem muito a democracia (citação a 300 - a HQ - “deixe a democracia para os atenienses” -), e adoram resolver as coisas na base da porrada!

7 - embora sejam vistos como império pelo resto do mundo, não podemos esquecer que os Americanos se vêem como legítimos lutadores da liberdade.

8 – Os persas são mostrados como escravos, alienados, corruptos e fanáticos... que é o ponto de vista de muita gente sobre os povos Islâmicos (principalmente a maioria dos norte-americanos).

9 – Esparta ficava no Ocidente, e Pérsia no Oriente. Os E.U.A. ficam Ocidente, e os povos Islâmicos no oriente (é, ficou meio chocho esse item, mas ainda assim é um item :P)

10 – e por ultimo: É um filme americano, feito por americanos, e onde os Espartanos falam inglês (ta certo que os Persas também falam, mas eles falam bem menos na trama).

Bem, acho que é só isso mesmo... mas é bastante coisa não? Mas antes de respondermos a derradeira pergunta do inicio do texto, vamos correr o caminho inverso...

Semelhanças entre os espartanos e os atuais povos Islâmicos


1 – O mais próximo que temos de um império como o persa hoje em dia é os E.U.A, tanto em extensão, quanto em poder.

2 – As tropas americanas (e a nação) são compostas por diversas etnias, assim como são mostradas as tropas de Xerxes.

3 – Para os Islâmicos (e para boa parte do mundo), os americanos é que são invasores.

Podemos notar que existe também uma semelhança mínima entre espartanos e os povos do Islã. Mas ela é definitivamente menor do que a semelhança com os americanos, o que elimina as chances de ser visto como “campanha contraria” (pró Islã). A boa bilheteria nas terras do “Tio Sam” também desmente isso, assim como a rejeição que ocorreu com o longa no Irã...

Conclusão

Depois de pesarmos todos esses fatores envolvidos, tá na hora da resposta... Não, 300 de Esparta não é uma propaganda de Guerra. Pode ter toda a cara de uma, e fatores que a identifiquem como sendo, mas de fato não o é. Foi criada como filme, e não passa de um filme... Um filme extremamente “milico”, mas ainda sim apenas um filme :P.
Mas ai paira outra duvida... “Mas ele serve de Propaganda de guerra?”. Quanto a isso: com certeza! O filme tem características que casam como uma luva (como mostrado acima) com tal objetivo, a ponto de que você (falo aqui com os nerds) vai ouvir muita conversa a respeito. Acredito inclusive, que ele deve aumentar o numero de alistamentos nas terras do “Tio Sam”. Mas não se esqueça de um detalhe: não é porque serve muito bem como, que foi previamente concebido para servir como. Por isso, lembre-se da lição do filosofo (cujo nome não lembro): "uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa".



Brinde exclusivo: a trágica sina do “macho” pós-moderno – uma critica a 300

Antes que leiam, saibam logo de cara que essa não é uma critica comum. Ela não vai resumir a história, ou focar todos os pontos da trama. Ela só vai se ater ao que realmente me interessa falar sobre o filme, e é bom que antes de lê-la você já o tenha visto ou lido a HQ que o inspirou, porque não to nem ai em revelar spoilers. É... era só isso :P

Como todo mundo sabe (a, tá bão... quase ninguém sabe :P) vivemos uma época que alguns teóricos chamam de pós-modernismo. Das varias características que a definem, acho que a mais relevante é a redefinição do homem (no sentido masculino) na sociedade ocidental. Por milhares de anos, vivemos com um padrão de sociedade machista e patriarcal, até que veio o século XX e mudou (quase) tudo. As mulheres tomaram lugares onde antes elas não eram permitidas, ao mesmo tempo que a automação de muitos processos que antes exigiam “força bruta” transformou o “macho” da espécie em alguém que não pode exercer mais sua “machesa” em toda sua "magnitude. Para uma melhor elucidação, assista o filme “clube da luta”, que trata do assunto.
Pra mim o filme 300 seria um resgate desse mundo outrora patriarcal. A chance, minha e da maioria da geração atual de entrar em contato com nosso “macho interior”, já que o mundo real geralmente não nos permite isso mais. Somos uma geração de “Shopping”, uma geração “criada por mulheres” (citação obrigatória a “clube da luta”), uma geração em que homens passam mais tempo no espelho que suas irmãs. Como vivemos nesse “mundo”, jogar um jogo de videogame ou assistir um filme são chances de satisfazer nossos reprimidos instintos de “machos”.
Tirando a base pela HQ de Miller, era de se esperar uma “obra prima” nesse sentido, com violência, guerra, heroísmo e sacrifício. E 300, o filme, quase chega lá. Se não fosse por duas cenas...
O problema do filme foi a relutância do filme em se assumir como legitimo exemplar de “cinema macho”. E não falo de uma versão mais literal do roteiro de Miller não! Achei até bom algumas amenizações que ocorreram no filme: os espartanos são menos cruéis (entre eles) no filme; o fato de Leônidas não ser tão “Hitler” quando dialoga com Ephialtes; a diminuição da homofobia implícita nas referencias aos atenienses; e até a relação mais “humana” Leônidas com a esposa e filho . Essas todas alterações que listei até melhoraram a história, que se fosse totalmente fiel deixaria de ser “filme de macho” pra ser filme “propaganda de guerra neo-nazista”. Na verdade, o buraco é mais embaixo...

A primeira cena que estraga o filme é a que mostra a reação do capitão que perde o filho em combate. Naquele instante, ele lamenta “nunca ter dito que amava o filho” e outras coisas do tipo... Agora a pergunta básica: o que essa cena ta fazendo ali??? Porque ela é totalmente paradoxal ao resto do longa.
Esparta era uma cidade-estado que mais parecia um quartel. Não existia lá o conceito de família atual (que é coisa de “burguês”, diga-se de passagem). Lá não havia o estimulo de nenhum sentimento a mais que o necessário para se tornar um bom soldado. E isso não é de modo algum, um problema no contexto: Esparta era assim porque precisava ser!
Como já disseram (em outras palavras, mas com mesmo sentido) Maquiavel e Sun Tzu: “aqueles que desprezam a guerra como necessidade essencial de estado, ou que a acham uma atividade torpe, devem largar de serem bestas e se mancarem de que as vezes ela é a única coisa capaz de garantir a paz”. Parece paradoxal, mas não é. É a verdade! Em um mundo cercado de potenciais inimigos como o que os espartanos viviam, uma das melhores atitudes a se tomar era formar um exercito forte. Melhor viver num lugar autoritário e rígido como Esparta do que não viver. Simples assim.
E o filme, que todo o tempo reforça essa teoria de “mal necessário” da dureza espartana, quase que desmorona com essa cena!! Se fosse o Leônidas “neo-nazista” (o da Graphic Novel) a presenciar tal cena, provavelmente o “chorão” seria espancado para parar de dar mal exemplo!!

A outra cena ocorre quase ao final do longa.
Durante todo o filme, se desenvolve uma trama paralela que tem como único propósito “enriquecer” a personagem Gorgo. Se a principio achei aquilo uma “xaropada”, ao fim acabei gostando muito do resultado final.
A história de amor entre Leônidas e Gorgo se tornou uma relação complexa e bela, onde alem de o amor que eles sentem um pelo outro, existe o amor por uma causa comum. É esse amor, o por uma causa, um ideal, que fazem ambos aceitarem de maneira estóica os sacrifícios que cada um teria que fazer.
Gorgo, de maneira nenhuma, “traiu” Leônidas, mas sim agiu de maneira totalmente condizente com o ideal que unia os dois. E ambos sacrificaram seus corpos pela mesma causa. Eu achei isso no filme tocante e maduro, alem do que se costuma esperar de um filme pipoca.
Mas quando tudo estava perfeito... Na cena em que Leônidas despacha o “Forrest Gump” de Esparta, e esse pergunta se havia algum recado para a rainha, Leônidas (numa interpretação excelente de Butler) responde “nenhum que precise ser dito”. Essa cena foi perfeita. O amor entre Leônidas e Gorgo não precisa de auxilio verbal obvio, ele já é visto e sentido nas telas. Mas Snyder faz questão de estragar aquilo que levou quase duas horas pra erguer
Em seus últimos momentos, agonizando, Snyder faz Leônidas desferir uma “declaração de amor” a sua Rainha. E isso, sinceramente, ficou patético e obvio!! O “nenhum que precise ser dito” foi jogado no ralo aqui!! Se antes a poesia consistia em “sentir” o amor entre Leônidas e Gorgo, Snyder estraga tudo não confiando em sua própria platéia, achando que era necessário “mastigar e por na boquinha” pro povão entender.
Não bastando isso, a cena diminui o impacto de sacrifício pelo “bem coletivo” que Leônidas fez, tornando o filme não tão “macho” assim. Sem querer, ele ganha o caráter individualista que é uma característica central do pós-modernismo. Fica como se aquele sacrifício todo não foi feito pela Grécia, mas pela Gorgo.
Apenas pra comparação, vou citar “Casablanca” (esse sim um filme “macho” de verdade). Na trama, o cínico Rick (Humprey Bogart) por fim deixa seu grande amor ir embora com outro em nome de um bem maior: a resistência contra os nazistas. Rick sempre foi um “bosta”, mas esse ultimo sacrifício o redime, transformando-o finalmente em um homem (no sentido do que geralmente a sociedade exigia deles). A cena de sua separação tem poucas palavras, e quando sua amada parte ele também não faz questão nenhuma de choramingar com ninguém. Ele aceita seu destino e pronto. O publico sabe que ele está sofrendo por dentro, mas por fora ele não demonstra. Ele também está em frangalhos, mas como todo “macho”, guarda isso para si, pois o mais importante é o sacrifício que fez pelo bem comum, e não seu sofrimento individual.
Sendo assim, Snyder, vitima de sua própria geração, perdeu a grande chance de realizar um legitimo “filme macho” moderno, esquecendo-se que não é apenas de violência e guerra que se realiza tal feito, mas principalmente pelo modo como os personagens devem encarar seus sacrifícios pessoais...

Por isso, unicamente por essas duas cenas, que sou obrigado a dar uma nota 8 pro filme, que de resto é perfeito na realização do que se propôs.

PS: pra quem está se perguntando se deve assistir o filme ou não depois de tudo isso, saiba que eu recomendo o longa. Como eu disse logo acima, é uma excelente história sobre heroísmo e sacrifício, e principalmente sobre POOORRAAADAAAAA!!! E quase chega a ser uma obra prima do cinema macho, se não fossem duas ceninhas de menininha...

PS2: Será que só eu acho Santoro um ator tremendamente canastrão?

PS3: o filme consegue ser mais historicamente impreciso que a HQ. Por isso, o encarem como ele realmente é: uma mentira bem contada (muito bem contada). Se quer precisão histórica, assista a BBC, e não filme de Hollywood.

PS4: eu adoro PS’s (e parênteses também).

ERRATA: A culpa da ultima cena "piegas" que mencionei não é de Sniyder, mas de Miller, já que a mesma se encontra na HQ original. Mesmo assim, mantenho minha posição de que ela ficou ruim, e creio que o diretor deveria ter "tato" pra perceber isso e exclui-la. é só.